Estratégias para a cidade comercial 1 de Dezembro

Os comerciantes da Rua Heróis da Grande Guerra e ruas adjacentes auto-organizaram-se para animar aquela zona da cidade. Às suas custas, adquiriram árvores de Natal. Decoraram-nas com motivos específicos do ramo de comércio a que se dedicam.
Neste sábado, o espaço público caldense ganhou mais cor e animação. E atractividade.
Gostaríamos de ver as entidades públicas perceber o sentido desta iniciativa e cooperar com ela.
Cooperar seria, por exemplo, montar uma tenda com ateliês na Praça 5 de Outubro, onde os pais pudesse deixar os filhos durante duas horas de manhã ou de tarde, enquanto faziam as suas compras de Natal.
Tudo o que seja conduzir as pessoas preferentemente para os espaços fechados, por exemplo da Expoeste, vai no sentido inverso.

 
João Teixeira Lopes 30 de Novembro

Numa exposição clara, sem ser esquemática, tendo por base muito trabalho empírico, exposta com entusiasmo, Teixeira Lopes falou de políticas culturais. Referiu-se aos bons e maus exemplos municipais, às boas e más práticas governativas em matéria cultural. Recusou a ideia comum de que a cultura só é prioridade depois de garantidos outros patamares de necessidades básicas e sublinhou a convicção da autonomia da instância cultural enquanto produto das qualificações humanas e sociais. Insistiu na dimensão escala para justificar a coordenação de equipamentos regionais. Recordou a sua experiência de programador da Porto 2001 e teve palavras de elogio ao trabalho de Fernando Mora Ramos e do Teatro da Rainha.
Iniciativa da Isabel Castanheira (Loja 107) e da Isabel Xavier (associação PH), que apresentaram o autor com a elegância, sobriedade e rigor habituais.

 
O arquivo de José Relvas 27 de Novembro

Presença na sessão de hoje dos II Encontros dos Patudos, em Alpiarça, do Presidente da Assembleia da República. Oportunidade para apresentar o trabalho que está a ser feito no arquivo histórico, com a recuperação dos papéis de Relvas e a elaboração do respectivo inventário.
Jaime Gama reiterou a intenção de acolher na Assembleia da Repúbica, durante o primeiro semestre de 2008, uma exposição sobre José Relvas e a Casa dos Patudos.
Em formato mov (portanto sem a qualidade de imagem do power point) a apresentação pode ser vista aqui ao lado.

 
Do diploma ao C.V. 25 de Novembro

Jean de Munck aborda o tema das mudanças nas sociedades contemporâneas sob a perspectiva da "mutação da relação com a norma" numa obra colectiva, editada em 1998, sob o título genérico "França: as revoluções invisíveis".
Todas as sociedades instituem modelos de produção do saber. A sociedade industrial criou mecanismos formais baseados na escola e no diploma. Desde a escola primária à universidade, e segundo as fileiras técnica ou científica, cada grau e tipo de ensino oferecia um saber codificado e um diploma padronizado. E distribuia esse saber por quatro grandes áreas: concepção versus execução, tarefas manuais versus tarefas intelectuais.
Assistimos hoje, na expressão daquele professor da Universidade de Lovaina, a uma "desformalização" dos saberes e consequente desvalorização do diploma. Os saberes são agora objecto de permanente inovação. Estão em contante comunicação entre si e deixaram de respeitar as "fronteiras entre execução e concepção, entre objectos e símbolos, entre produção e serviço".
Daí que uma parte importante dos saberes sejam hoje produzidos no contexto da sua aplicação. Os actores que intervêm no processo laboral recompõem os saberes acumulados, transferem-nos, reformulam-nos, adaptam-nos a situações novas e imprevistas.
Passamos pois do mundo do diploma ao mundo do "curriculum vitae", ou seja, do mundo dos saberes normalizados ao mundo dos saberes flexíveis, assentes nas capacidades de interacção de cada um.

AAVV, La France: le révolutions invisibles. S/l, Calmann-Lévy e Magnum Photos, 1998

 
O vulcão da Ilha do Fogo 24 de Novembro

Barriga do vulcão fotografada por Ana Maria Bettencourt (Julho de 2007).

A cratera do Vulcão da Ilha do Fogo tem 8 km de diâmetro.

Na base, são visíveis as edificações de uma aldeia

 
Foi Assim, segundo Zita 23 de Novembro

Nasci em 1949, há pois entre mim e a autora um contexto geracional partilhado, mas a escolha de vida que Zita Seabra realizou aos 18 anos representa uma passagem para outro lado. É um outro lado da vida, sem dúvida, mas também como se percebe, um outro lado da política. Parece estranho dizer isto, porque para quem combatia o Estado Novo, o autoritarismo, a repressão, a polícia política, a guerra colonial, parecia estarmos do mesmo lado da barricada. O certo, porém, é que ser do aparelho clandestino do Partido Comunista, respeitar a sua disciplina, exercer as tarefas que a organização determinava, cumprir a norma que a ideologia comunista propugnava era ser do outro lado, estar do outro lado. A comunicação entre ambos os lados existia, mas era muito condicionada e filtrada, não havia verdadeira interacção.
Este é para mim o motivo do interesse por Zita Seabra, a sua história, o livro que escreveu. Devo dizer, em primeiro lugar, que a leitura do "Foi assim", em nada me desiludiu. Pelo contrário. Dizer que li com agrado é pouco. O texto de Zita Seabra desperta uma verdadeira emoção intelectual. É, além disso, um texto bem escrito que agarra o leitor da primeira à última página.
[Extracto da apresentação do livro Foi assim, no Populus, por iniciativa da Livraria Loja 107. O texto completo pode ser lido aqui e na Biblioteca ].

 
Frenzy: o regresso do velho Hitch 19 de Novembro

Continuação do ciclo "Cinema e Debate", organizado pela Professora Madalena Gonçalves, na ESAD, com "Frenzy - Perigo na Noite", de Hitchcock.

Frenzy, estreado em 1972, é o 55º filme de um cineasta que realizou, entre 1925 e 1976, nada menos que 56 filmes. Alfred Hitchcock nasceu em 1889 e morreu em 1980. Londrino, foi o autor do primeiro filme falado britânico. Em 1939, emigrou para os Estados Unidos, onde se consagrou como figura cimeira da indústria cinematográfica de Hollywood, criando a sua própria empresa produtora de filmes. No final da década de 50 e nos anos 60, depois de ter realizado Janela Indiscreta (1954), foi "descoberto" pelos críticos e cineastas da "Nouvelle Vague" francesa (Claude Chabrol, Eric Rohmer, François Truffaut), reforçando o seu prestígio na Europa. Alguns dos seus filmes antológicos são desse período: A Mulher que Viveu Duas Vezes (1958), Psico (1960), Os Pássaros (1963), Marnie (1964), Cortina Rasgada (1966).

 

Em 1970 voltou a Londres para rodar Frenzy . Poucos anos antes, Hitchcock tinha começado a trabalhar no argumento de um filme-documentário sobre um serial killer londrino, Neville Heath, que seduzia as mulheres antes de as matar. O projecto deste filme, cujo título seria Caleidoscópio, incluía muitas cenas realistas, filmadas à mão, e a Universal rejeitou-o. Sucede que o título inicial de Caleidoscópio era precisamente Frenzy . Neville é ainda o nome de um dos clientes do escritório de casamentos de amizades de Brenda.
Frenzy tem por base os actos de um serial killer que viola as vítimas e as asfixia com uma das suas gravatas.

Covent Garden propiciou a Hitchcock as mais marcantes cenas de exterior de Frenzy . Como este mercado tradicional da cidade iria desaparecer pouco depois, podemos ver nesta escolha não só a homenagem que o realizador quis prestar a seu pai (vendedor de frutas e hortaliças em Covent Garden) como a transposição para este filme do intuito documental previsto para o filme recusado.
Hitchcock integrou a produção não apenas no ambiente da cidade de Londres - com diversas referencias aos seus emblemas urbanos - o Tamisa, a Tower Bridge, com as suas pontes basculantes - mas também no sistema britânico de produção cinematográfica, recorrendo, por exemplo, a actores com experiência de palco mas não a estrelas do cinema, e prescindindo dos grandes orçamentos.

O universo hitchcockeano é bem reconhecível neste penúltimo filme de uma longa carreira. Lá estão, em doses específicas, uma história policial, a maldade humana, o humor carregado (humor negro), o jogo de sentimentos (o romance), o suspense. E o fio de história é também um clássico de Hitch - há um crime, há um inocente acusado ou suspeito (neste caso, condenado) e só no fim o verdadeiro criminoso é desmascarado.
Mas estão lá, sobretudo, um conjunto de procedimentos técnicos e artísticos que fizeram de Hitchcok um dos mestres da narrativa cinematográfica e uma atenção aos pormenores que fazem dos seus filmes inesquecíveis momentos de mistério e divertimento.
Salientarei alguns desses procedimentos técnicos e alguns desses momentos inesquecíveis.
Quanto aos primeiros:

-        a presença de Hitchcok no comício junto ao Tamisa

-        a violação e estrangulamento de Brenda, num reduzidíssimo espaço de um escritório (60 takes)

-        a "descoberta" de Mrs Blaney pela secretária Mónica

-        o encontro entre Babs, saída do Pub, com Rusk

-        o "adeus" a Babs

-        a descoberta por Rusk da falta do alfinete de gravata

-        Rusk às voltas com o cadáver de Babs (140 takes)

-        A sentença do tribunal ouvida através do abrir fechar da porta da sala de audiências

-        Blaney na sua cela de condenado

-        a reacção do inspector à condenação de Blaney

-        o desmascaramento do serial killer

Quanto aos segundos (em registo de humor negro)

-        referencias aos rins e fígado das vitimas do Estripador por um dos espectadores da recolha do primeiro cadáver

-        relação entre assassinios em série e turismo, feita pelos dois cavalheiros no pub

-        as referencias às batatas e ás uvas ("peel me the grape", as uvas que acompanham as codornizes)

-        um assassino que palita os dentes com um alfinete de gravata

-        as refeições confeccionadas por Mrs Oxford

-        a quebra de gressinos operada por Mrs Oxford enquanto ouve o relato do marido sobre a forma como o assassino retirou o alfinete da mão em rigor mortis da sua vitima

-        o equívoco de Blaney ao agredir mortalmente uma das vítimas de Rusk

-        A teoria de que, apesar de tudo, o casamento defende melhor os indivíduos: os dois casais do filme (Oxford e Porter), embora com divergências, não incorrem nos riscos dos personagens não casados: um é preso por um crime que não cometeu, outro é um psicopata, duas são assassinadas e o espectador teme por Mónica (secretária de Brenda).

-        que pode esperar Blaney depois de reconhecido o verdadeiro culpado? Um jantar de pato com espesso molho de cerejas preparado por Mrs Oxford.

A descoberta do cadáver
 
Encontro com o assassino
O Adeus a "Babs"
O Alfinete
Leitura de sentença
Prisioneiro
O Inspector Oxford
Desmascarado

CICLO CINEMA E DEBATE
5 DE NOVEMBRO - 12 DE DEZEMBRO
18H30
AUDITÓRIO EDIFÍCIO 1, ESAD
Iniciativa do Grupo de Estudos "Pensar a Representação"

 

Cada sessão é subordinada a um tema. Após o visionamento do filme, o debate é introduzido e moderado por um professor da escola. Pode ver aqui o programa completo.

 
Estúdio fotográfico de Carlos Relvas 18 de Novembro

Um salto à Golegã, para visitar o Estúdio de Carlos Relvas. Pioneiro da fotografia, que tratou como uma nova arte, Carlos Relvas, pai de José Relvas, nasceu e viveu na Golegã entre 1838 e 1894. O edifício que construiu para aí compor, cenografar, trabalhar laboratorialmente a fotografia foi concebido como um "templo". A recuperação, recentemente concluída, é excelente e a musealização do espólio que chegou até hoje, após décadas de abandono e degradação, escorreita e agradável. Incompreensivelmente, o único estúdio fotografíco patrimonializado que existe em Portugal não pode ser fotografado.

 
Estúdio Carlos Relvas na Golegã
As Repúblicas de 1911 e 1975 17 de Novembro

"Encontro" nos Patudos, em Alpiarça, revivendo os serões de há um século, animados por uma palestra e um concerto. Antes do "Opus Ensemble" evocar Lopes Graça, e após uma visita à Casa de José Relvas guiada pelo Director, conversa sobre o sistema político de 1911 e 1976, em perspectiva comparada. Ocasião para relembrar o complexo e atribulado processo de transição português entre o 25 de Abril de 1974, as primeiras eleições contitucionais para a Assembleia (Abril de 1976) e para o Presidente (Junho de 1976) e a formação do Primeiro Governo Constitucional (Julho de 1976).
[O texto completo pode ser lido aqui e na Biblioteca]

 
Pancho Guedes 12 de Novembro
No útimo mês, quase duas centenas de novos visitantes deste site foi atraído pelo dossier sobre o arquitecto Pancho Guedes. Com uma exposição sobre a sua obra em Lourenço Marques/Maputo, inaugurada a 29 de Setembro no Museu Suiço de Arquitectura (SAM) de Basel (cantão de Basileia), os trabalhos deste notável criador despertaram um súbito interesse. Várias revistas publicaram notícias desenvolvidas sobre o arquitecto e alguns críticos apressaram-se a assinar uns textos incompreeensíveis onde exibem aquela intimidade habitual com um autor que ainda na véspera ignoravam. De modo que vou recuperar o meu dossier (está aqui) e proceder à sua actualização e revisão, com base na bibliografia entretanto saída. Site Pancho Guedes
SAM, Basel
 
Jorge Sampaio, combater de novo a tuberculose 11 de Novembro
Jorge Sampaio fala da luta contra a tuberculose, uma doença que voltou a ameaçar a saúde sobretudo das populações pobres do planeta, e dos desafios que preenchem a sua vida depois que deixou a Presidência da República.
Entrevista ao Notícias Sábado
 
Conferencia Gustavo Cardoso 7 de Novembro
Pode ler aqui as principais conclusões da conferência, apresentadas e debatidas na aula de Novas Mediações.  
Mais fotografias de Ana Maria Bettencourt do vulcão da Ilha do Fogo 6 de Novembro
 
"Estudos" 5 de Novembro

O editorial do Público de hoje insere um conjunto de observações pertinentes sobre a "avalanche de estudos" a que os responsáveis políticos cada vez mais recorrem para fundamentar decisões e sustentar clientelas. E conclui que não é mais possível admitir o prosseguimento desta prática sem um minucioso escrutínio público.
Também se poderia questionar a qualidade de muitos desses estudos, elaborados para responder a exigências de oportunidade ou efectuados em função da perspectiva previamente enunciada do cliente. Estudos a pedido, realizados por tarefeiros recrutados á saída das Faculdades, em gabinetes, de que as principais fontes de informação são as bases de dados disponíbilizadas por instituições através da internet e ... outros estudos. Quantas vezes, esses estudos não passam afinal de exercícios de "copy & paste" onde se esbate mal a transposição de um espaço para outro do mesmo ensaio, da mesma aplicação metodológica, às vezes do mesmo corpo de conclusões.

Avalanche de estudos
 
Cafés Literários em Novembro 3 de Novembro

23 de Novembro
Zita Seabra, Foi Assim
Apresentação por João B. Serra
21H30, Café Pópulos, Parque D. Carlos I
Organização Livraria Loja 107

 

30 de Novembro
João Teixeira Lopes, Escola, Território e Políticas Culturais
Horas: 21H30, Café Pópulos, Parque D. Carlos I
Organização Livraria Loja 107/Associação Património Histórico-Grupo de Estudos

Ota, Oeste, Mateus 2 de Novembro

Está a chegar ao fim o processo de elaboração do parecer final do Laboratório Nacional de Engenharia Civil sobre a localização do novo aeroporto internacional de Lisboa e está também em fase final de discussão Plano de Acção para o Oeste a cargo de uma equipa dirigida por Augusto Mateus.
Em Maio, diferentemente da maioria dos congressistas, não me senti contagiado pelo ardor com que Mário Lino defendeu a opção Ota. O meu desconforto não resultou tanto da forma peculiar como "matou" o seu discurso com a "gaffe" sobre os seus títulos profissionais reconhecidos pela Ordem (um acidente que pode custar a perda do controlo político sobre a decisão final), mas da percepção das entrelinhas da intervenção de Augusto Mateus.
Augusto Mateus é um economista com grande preparação e experiência, que pensa politicamente com racionalidade e perspicácia. Num ambiente que sabia hostil a qualquer solução que não a da Ota, colocou o problema do aeroporto num plano que, sem o afirmar explicitamente, fornecia uma barragem de argumentos contra esta hipótese. Hoje ninguém já duvida que se vão adensando as vantagens de Alcochete e que os partidários de Ota não recolocaram as suas razões em cima da mesa. Desde Junho que, aparentemente, perderam a iniciativa. Augusto Mateus preparou o Plano de Acção para o Oeste na lógica (que várias vezes afirmou) de que as oportunidades do Oeste residem na capacidade que manifeste de se articular, com os seus valores próprios, com uma área metropolitana, a de Lisboa, competitiva à escala global. Uma área metropolitana dotada de uma "cidade aeroportuária", esteja ela situada na margem norte ou sul do Tejo.

 
Acesso à rede 31 de Outubro

Ex.mos Senhores
Começo por recordar o que se passou comigo (este é o 3º mail que vos envio, a que se deverão somar quatro telefonemas e duas idas à Cabovisão nas Caldas): a 16 de Outubro fiquei sem acesso; a 17 comuniquei o facto telefonicamente; a 18 veio a minha casa um técnico que verificou o equipamento e declarou que o problema era externo; esperei (impacientemente) que se realizasse uma verificação externa, o que só aconteceu a 29 de Outubro (e da qual não recebi informação); a 3, hoje, continuava sem acesso e pedi novamente a intervenção técnica, o que, após insistência desesperada, aconteceu (às 21 horas); o técnico que veio a minha casa verificou rapidamente que o problema residia no modem e substituiu-o. Tão simples como isto. às 21,30 o acesso estava restabelecido.
Não podem pois restar grandes dúvidas: estive entre 18 e 31 de Outubro (ou seja 14 dias) sem acesso à net por causa que só pode ser imputada à incompetência técnica de quem fez a verificação do dia 18. Pergunto: como é que a Cabovisão, de que sou cliente há bastante tempo, tenciona reconhecer este erro, reparar as suas consequências (e conservar este cliente)?

 
Sociedade em rede e cidades criativas 30 de Outubro

CONFERENCIA/DEBATE COM O PROFESSOR GUSTAVO CARDOSO
7 DE NOVEMBRO, 10H30 - 12H30
AUDITÓRIO EDIFÍCIO 1, ESAD
Iniciativa da unidade curricular "Novas Mediações"

Cidades criativas
Gustavo Leitão Cardoso é doutorado em Sociologia pelo ISCTE (2005). Tem realizado investigações sobre o uso da internet e a sociedade em rede. Colabora com o Manuel Castells, que foi seu orientador de tese de doutoramento. Foi consultor da Casa Civil do Presidente Jorge Sampaio para os temas de sociedade da informação e conhecimento. Ver aqui o seu curriculum e publicações.  
Tentar perceber 30 de Outubro
Terminou já passava das 3 (!) a conversa com Fernando Catroga e Luis Salgado de Matos, iniciada às 19 no Corte Inglês, pela mão de José Reis Santos, e prolongada após o jantar. Do ideário republicano anterior ao 5 de Outubro às contradições dos sistema político montado após a Revolução, do iluminismo positivista à legitimidade revolucionária debateu (e concordou-se) muito. Se tiver paciência, pode consultar as nossas conversas iniciais em registo audio História no Corte Inglês
Gravações
Isabel Castanheira 29 de Outubro

 

Isabel Castanheira

 
A Isabel é a livreira das Caldas. É esta a imagem que os caldense retêm dela. A imagem tem uma correspondencia ponto a ponto com a pessoa. A Isabel estabeleceu um nexo profundíssimo entre a sua actividade e a sua vida. A sua intervençâo cultural, as suas preocupações sociais, as suas atitudes cívicas são desdobramentos da sua profissão. E sucede que o inverso também pode ser verdadeiro: o empenho cívico, o entusiasmo pela cultura, a consciência social da Isabel contagiaram a livreira, tomaram conta dela.
A sua pequena livraria é um estratégico ponto de encontro. Um ponto de encontro, não apenas entre livros e leitores, mas também entre autores e públicos. Um ponto de encontro entre gente que gosta de livros e gente que precisa de livros. Entre leitores ocasionais e leitores compulsivos, entre leitores de fim-de-semana e leitores de todos os dias, pessoas que gostam de ler livros e pessoas que gostam de falar, ou de ouvir falar, de livros. Ponto de encontro entre jovens à procura do primeiro livro e avós que pedem um conselho sobre um livro com que gostariam de fazer alguém feliz. Um ponto de encontro entre forasteiros e residentes, entre imigrantes e emigrantes, entre os que saiem e os que voltam. Um ponto de encontro entre géneros literários e até projectos culturais. Na loja 107 não se procuram apenas livros, o que seria bastante. Pedem-se e cruzam-se informações e conhecimentos, pedem-se e cruzam-se valores e afectos.
A pequena livraria da Isabel Castanheira é uma imensa janela para o mundo. O mundo dos livros e da cultura, sem dúvida, e, através deles, o mundo em que vivemos e que queremos sentir e compreender melhor. Mas é também uma jbatem opiniões. O mundo que passou, mas cuja herança recolhemos e revisitamos com amor e desvelo. A Isabel é muito hábil e guiar-nos nos caminhos, por vezes mal iluminados, desse mundo/história e património. O mundo de amanhã, inventado pelos poetas e prescrutado pelos cientistas. O largo mundo, cuja fronteira um dia ajudamos a ampliar, ou o mundo mais próximo, das ruas Heróis da Grande Guerra e Almirante Cândido dos Reis, da cidade das Caldas da Rainha. O mundo borbulhante e paradoxal que queremos perceber e transformar, o mundo dos pequenos e grandes desafios que ousamos enfrentar.
A livraria 107 é um ponto de encontro e uma janela porque lá dentro está a Isabel Castanheira. Duas qualidades singularizam a Isabel: a generosidade e a criatividade.
A generosidade já todos os que aqui vieram, com um sorriso e uma flor, a experimentaram. A cada um de nós a Isabel já presenteou com o seu gosto de ser útil, o seu sentido de serviço ao público, os seu saberes, a sua entrega voluntária. Quem não beneficiou já da sua inesgotável energia, da sua iniciativa abnegada, da sua capacidade organizativa? Em todas as campanhas em que se envolveu, promoveu livros, deu a conhecer e a reconhecer autores, disponibilizou as suas próprias colecções, impulsionou actividades e actores culturais, acima de qualquer cálculo de natureza comercial (aliás legítimo). A Isabel foi o centro de referência de grandes causas cívicas que não nos deixaram indiferentes - como o da independência de Timor - e às quais demos o melhor de nós próprios.
A Isabel não pára de nos surpreender. Faz lançamento de livros e organiza a visita de autores, cada uma das sessões marcada por um gesto singular de carinho e de bom gosto. A sua livraria foi das primeira do país a dispor de uma base de dados bibliográfica digitalizada. Construiu e mantém um blog que é um êxito, pela informação que atrai e divulga. Lançou inúmeras campanhas, visando a afirmação e qualificação do comércio tradicional e do seu contexto urbano. A ela se deve a logística mais inovadora das multiplas acções da associação Património Histórico, de que foi fundadora e de quem tem sido sempre dirigente. É uma das mais activas divulgadoras da personalidade e da obra artística de Rafael Bordalo Pinheiro, desenhador e ceramista.
A livraria Loja 107 e a Isabel Castanheira são pois as depositárias de um conjunto de valores, ou nas palavras de Georges Steiner, de certas "convicções e audácias de alma" que são o melhor que temos para contrapor "ao despotismo do mercado de massa" e "às consequências do vedetismo comercializado". E são eles (seguindo de perto as reflexões de Steiner): a procura desinteressada do saber, a exaltação da beleza, a aposta na criatividade humana. Não é pequeno privilegio este, o de termos entre nós esta fábrica de sonhos, onde a ingenuidade é o antídoto da vulgaridade e a prevalência de ideais nos protege da uniformidade e do nivelamento por baixo.

Felicidades, Isabel. Parabéns, Rotary Club das Caldas.

Ilha do Fogo, 2007 29 de Outubro

 

Ana Maria Bettencourt
Vulcão Pequeno e Vulcão Grande, Ilha do Fogo, Cabo Verde, Outubro de 2007

"Aqui vão umas fotos dos vulcões da Ilha do Fogo: o cone mais pequeno, de 1995 (a que chamam o vulcãozinho) e o maior, o que nós subimos há uns dias (2.800 m, mas sobe-se a partir de cerca de 1800)".

Ligação à rede 28 de Outubro
12º dia sem ligação. Vou para Lisboa mais cedo, a fim de resolver, através da netcabo, uma série de problemas pendentes e actualizar este site.  
Elogio de Babel 27 de Outubro

"Quando morre um idioma, morre com ele uma perspectiva total - uma perspectiva como nenhuma outra - da vida, da realidade, da consciência. Quando um idioma é arrasado ou reduzido à inutilidade pelo idioma do planeta, ocorre uma perda irreparável no tecido da criatividade humana, nos modos de sentir o verbo esperar. Não há nenhuma língua pequena. Algumas línguas do deserto do Kalahari apresentam mais subtilezas sobre o conceito de futuro, sobre o subjuntivo, do que aquelas que Aristóteles tinha à disposição. Em vez de uma maldição, Babel formava a própria base da criativiadade humana, da riqueza do intelecto, que traça os diversos modelos de existência (tentei demonstrar isso em toda a minha obra). De forma até mais drástica que a actual destruição da flora e da fauna, a eliminação das línguas humanas - calcula-se que poderiam sobrar umas cinco mil das vinte mil que existiam até há pouco tempo - ameaça vulgarizar, padronizar os recursos internos e sociais do género humano. Por isso, não me parece que exista um problema mais urgente do que o da preservação do dom das línguas do Pentecostes, a defesa e ilustração, para usar uma expressão conhecida do Renascimento, de cada idioma, sem excepção, por muito reduzido que seja o número dos seus habitantes, por muito modesta que seja a sua dimensão económica e territorial. Aprender um idioma, ler os seus clássicos, contribuir para a sua sobrevivência, ainda que em modesta medida, é contrariar essa tendência".

George Steiner, Os sonhos são o campo neutro das contradições
Premio Principe das Asturias, Comunicación y Humanidades, 2001

 
Vivaços à solta 26 de Outubro

Vieram de Braga, patrocinam em exclusivo o Leixões e propõem-se fazer centros comerciais em Felgueiras e mais umas tantas cidades. Começam pelas Caldas, onde adquiriram um espaço com uma localização invejável, embora onerada com um edifício histórico. Tudo fizeram para se livrar desse edifício, porque o viram como um encargo e não como um valor. A cidade agradecida, curva-se e exulta com a honra concedida: ser a primeira de dez cidades que vão deter um "Vivaci". Um quê? E o Sr. Presidente, embalado pela visão/Braga da FDO, pela ambição/Leixões da FDO, e pelo seu próprio verbo fácil, adivinhou ali a visão e ambição de uma rainha: Leonor. Mas logo corrigiu, porque apesar de tudo Leonor era mulher e ele não queria ser mal interpretado: D. João. Quem? Sim, João II, o que dividiu o mundo em Tordesilhas e preparou o Gama para descobrir o caminho marítimo para a Índia.

Fernando Costa elogia a FDO
 
Ligação à rede. E que responde a Netvisão ao meu mail de reclamação do dia 23? 26 de Outubro

Nada.
Pelo que, nova reclamação é apresentada, desta vez em pessoa, no balcão da empresa Cabovisão, nas Caldas.
Tem toda a razão, diz a empregada. Já lhes disse que têm de ir ver o que se passa, garante. Hoje vai ficar a avaria reparada.
Não ficou, evidentemente.

 
Aprender a ler (ler bem, ler com competência) para ser mais livre 23 de Outubro
No dia em que os números nos confirmam o que julgávamos perceber à nossa volta: os portugueses são dos europeus que menos lêem (nos hábitos de leitura incluindo, além de livros, jornais e revistas), uma homenagem a Teresa Calçada. Ela é o rosto mais expressivo e entusiasta das bibliotecas escolares. Mas é também uma apoiante convicta (e promotora - na localidade onde tem residencia, a Marmeleira, em Rio Maior) de bibliotecas populares. Se hoje, apesar de tudo, alguma coisa aconteceu (pouco, desoladoramente pouco) com a leitura entre os jovens, à difusão das bibliotecas escolares se deve algum desse êxito. A biblioteca é o complemento da sala de aulas. E uma condição para a cidadania. Ouça , aqui, Teresa Calçada.   Biblioteca Popular da Vila da Marmeleira
 
Ligação à rede 23 de Outubro

Ontem, novo telefonema para a Cabovisão. Que aconteceu aos 2/3 dias que me tinham sido referidos no dia 18 para solução do problema de acesso à rede? Está agendada para dia 29 deste mês uma vistoria externa para confirmar se há falta de sinal, respondem-me. Não quero acreditar no que ouço. Seguem-se momentos penosos. Tento desesperadamente convencer o meu interlocutor de que estar sem acesso desde 16 até 29 (na melhor das hipóteses) é inaceitável. Que os prejuizos causados são incalculáveis. Que se o problema é exterior ao domicílio, tal como no caso de uma avaria do sistema de abastecimento de água ou gaz ou electricidade, a empresa tem de ter um piquete para intervenções de emergência. Nenhum dos argumentos produz qualquer efeito. É evidente que este serviço de atendimento de chamadas só está apto a entreter clientes, não a atender clientes. Pergunto a quem me devo dirigir para apresentar uma reclamação. Hesitação do outro lado. Não tem livro de reclamações. Não, responde-me, mas pode mandar um mail. Um mail? Como, se não tenho acesso? E um mail dirigido a a quem? Tem provedor do cliente? Provedor, não tem, mas tem geral, mande um mail para o geral que será encaminhado.
Hoje, procuro num computador da ESAD o "geral" da Cabovisão. Escrevo um mail duro, protestando. Dada a cultura de arrogância deste tipo de empresas, e desta em particular, nada de bom há a esperar. Duvido que me respondam, sequer.

 
Concurso 22 de Outubro
14,55: chega ao seu termo a preparação do concurso para professor coordenador. Nas condições em que o fiz, de uma carreira académica pouco "ortodoxa", encavalitada nos últimos anos noutras funções exigentes, o importante foi mesmo este trabalho de organização e documentação do curriculum vitae e de elaboração de uma lição sobre um tema do programa e de uma dissertação acompanhada de um projecto de invstigação. O resto, que a seguir virá, já não depende só de mim.  
Ligação à rede 18 de Outubro
Equipa da Cabovisão verifica modem e cabos. Conclui que modem está em boas condições, mas não consegue receber dados do servidor. A melhor hipótese é que o sinal chegue demasiado fraco. Sossegam os meus receios: vai ficar tudo arranjado dentro de 2/3 dias. Como há um fim-de-semana peo meio, preparo-me para recuperar a net na Segunda-feira. Parece-me razoável.  
Água imóvel e silêncio transido 17 de Outubro

Raúl Brandão, nascido na Foz do Douro em 1867, é dos escritores portugueses um dos que melhor expressou o apelo profundo do mar e o fascínio das ilhas. No Guia de Portugal, esse extraordinário projecto de Raúl Proença, um novo Lusíadas escrito a várias mãos, pelos mais qualificados intelectuais da época (1924), descreveu assim A Berlenga.

"Desembarca-se na pequena praia ao fundo do carreiro do Mosteiro, tendo em frente as escarpas vermelhas da ilha, que emergem da água verde, grossa e transparente como um vidro. Ao pôr do sol todo este granito enferrujado escorre sangue de alto abaixo, até à água que desvenda os fundos mágicos através duma lente esverdeada. Subimos um carreirinho a pique até às ruínas do pequeno eremitério de frades jerónimos, suspenso do azul e perdido naquela imensa solidão.É um sítio poético, que nos faz sismar e nos penetra de encanto. Quem esgaravata nas pedras, ainda encontra uma data apagada - amor, morte. sofrimento, tudo reduzido a cisco... Mas quem ergue os olhos, só encontra deslumbramento e vida: bóia o sol na atmosfera límpida e sem um átomo de poeira; cerca-nos o azul em ondas magnéticas, e lá para diante vagas sobre vagas. Ali em baixo, a nossos pés, avista-se uma praia solitária, um côncavo do tamanho da mão onde nunca entrou o sol. Fria e pálida entre grandes rochas negras e cenográficas, que emergem do mar e se recortam no azul, transem-nos como um sítio misterioso que o homem visse pela primeira vez. Aquela água verde, prisioneira entre escarpas altíssimas, dá-nos uma sensação glacial e estranha...
(...) visita ao Furado, espécie de túnel marinho de 70 metros de comprimento, a Sudoeste da ilha. Um entalhe nos paredões de granito, e a onda leva o barco pelo corredor estreito sobre algas com grandes pinceladas de branco nos cabelos. É uma vida escorregadia e verde, uma luz glauca e movediça, um verde líquido, com transparências doiradas á superfície. Os filamentos verdes enrodilham-se, flutuam ao lume de água, ou repousam como braços inertes . Mas se vê: uma espuma e um fio de azul estremecendo ao cimo da babugem. Nos penedos negros chapadas mais escuras com estrias veremelhas e buracos que se afundam lá para dentro, para a espessura incógnita. Na penumbra, a luz que vem de fora reflecte em ondas nas nuralhas o movimento incessante das águas. Claridade ao longe, mais luz, e desemboca-se numa esmeralda engastada em vermelho, numa praia de areia intacta e fina, entre paredões temerosos cor de ferrugem. Em cima a nesga do ceú. Dum lado, o poço entreabre-se e vê-se o mar num rasgão, para lá das rochas que lhe defendem a entrada.Ilumina-o uma luz fria de fiorde, uma luz morta de paisagem lunar - uma luz que é silêncio ao mesmo tempo, serena e indiferente como este espírito que habita a ilha, belo, feminino, solitário e perverso. Água imóvel e silêncio transido."

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As ilustrações que aqui reproduzi são da autoria do arquitecto Paulino Montês. Natural de Peniche, onde nasceu nos finais do século XIX, Paulino Montês tinha família nas Caldas da Rainha e foi responsável por diversos estudos e planos urbanísticos da cidade. Estas aguarelas, dos anos 30, pertencem á colecção do Museu de José Malhoa
 
Ligação à rede 16 de Outubro
Fiquei sem ligação à rede. Tendo em conta experiências anteriores e a minha desconfiança em face destes operadores que temos, não posso deixar de ficar apreensivo. Consultado telefonicamente, o nosso engenheiro de computadores, prepara o caminho para a compra de um novo modem. De facto, este pisca-pisca, só acende uma tímida luzita.  
Sons para mais tarde recordar 16 de Outubro
Escola Básica Integrada de Santo Onofre: os alunos da turma 9º C, com o professor Rui Correia, desenvolveram em Projecto integrado 2006/ 2007 um trabalho colectivo designado "Pôr do Som ... Escutar quotidianos em vias de extinção". O resultado pode ser visto e ouvido no site que aqui se indica.Ana maria   Pôr do som
Entender Portugal Hoje: Curso de História Contemporânea no Corte Inglês, em Lisboa 15 de Outubro

Pretendemos, neste I Curso de História Contemporânea, proporcionar uma viagem ao século XX português e, aí, procurar as pistas para melhor entendermos Portugal . Direcção de Luis Reis Santos. Começa de hoje a uma semana.

Programa
A Arte do Vulcão 14 de Outubro
Ana Maria Bettencourt, A Arte do Vulcão, Açores (Pico), Agosto 2005  
Citações de O Paradoxo do Ornitorrinco (José Pacheco Pereira) 14 de Outubro

Escrevendo sobre o PSD, porque é suposto cuidar primeiro dos meus males do que dos males dos outros, falo sobre os problemas do esgotamento acentuado do nosso sistema político, quase todos eles partilháveis com o PS. A crise do sistema politico portugês é muito maior do que pensam os militantes dos partidos, e exerce efeitos muito perniciosos no conjunto da vida pública. (p.11)

Tiro já da equação factores que hoje têm um pequeno papel em todo este processo. Um é a componente ideológica e partidária, a adesão a um corpo de ideias e políticas, uma obrigação de intervenção cívica, que nos primeiros anos do PSD era um motivador das suas "bases" e que agora é apenas uma sobrevivência inútil. (p.18)

O segundo factor é a ilusão de que haja qualquer ética de serviço público, qualquer vontade cívica, qualquer projecto que não esteja ao serviço de objectivos que são para eles, "profissionais" no sentido pleno, para si ou para os seus familiares e amigos. (p. 19)

Uma parte do mundo dos "negócios" que circula ao lado e dentro dos partidos é constituída por empresas que vivem das encomendas dos partidos (nas campanhas eleitorais) e dos governos. Muitas dessas empresas são formadas por antigos militantes, e, nalguns casos, funcionários partidários que começaram por prestar voluntariamente ou profissionalmente, dentro dos partidos, os serviços que agora vendem. (p. 35)

O partido perdeu cada vez mais a sua relação com a sociedade civil, fechou-se aos melhores, promoveu pelo sindicato de voto e não pelo mérito. Já várias vezes insisti no facto de que, entregando o nosso sistema constitucional um número significativo de poderes aos partidos políticos e o monopólio da representação parlamentar, não se pode ser indiferente à qualidade da democracia interna desses partidos, aos seus mecanismos de promoção e carreira, aos efeitos perversos da corrupção, e a todas as manifestações oligárquicas do seu funcionamento". (48-49)

O outro problema da governamentalização do partido vem, não do exercício por politicos activos nas estruturas partidárias, de cargos que implicavam responsabilidade e confiança política, mas sim do número excessivo de dirigentes partidários que exercem cargos de nomeação estatal. (p. 114)

 
Xácara das dez meninas 13 de Outubro

Era hua vez dez meninas
de hua aldeya muito probe.
Deu o tranglomanglo nelas
não ficaram senão nove.
Era hua vez nove meninas
que so comeam biscoito.
Deu o tranglomanglo nelas
não ficaram senão oito.
Era hua vez oito meninas
em terras de dom Espàguete.
Deu o tranglomanglo nelas
não ficaram senão sete.
Era hua vez sete meninas
lindas como outras não veis.
Deu o tranglomanglo nelas
não ficaram senão seis.
Era hua vez seis meninas
em landas de Charles Quinto.
Deu o tranglomanglo nelas
não ficaram senão cinco.

Era hua vez cinco meninas
em um trianglo equilatro.
Deu o tranglomanglo nelas
não ficaram senão quatro.
Era hua vez quatro meninas
qu'avondavam só ao mês.
Deu o tranglomanglo nelas
não ficaram senão três.
Era hua vez três meninas
em o paço de dom Fuas.
Deu o tranglomanglo nelas
não ficaram senão duas.
Era hua vez duas meninas
ante hu home todo espuma.
Deu o tranglomanglo nelas
transformaram-se em só hua.
Era hua vez hua menina
terrada em coval muy fundo.
Deu o tranglomanglo nelas
voltaram as dez ao mundo.

Mário Cesariny, Primavera Autónoma das Estradas, 1980

 
Mas as coisas são como são 13 de Outubro

À meia noite espreitei o Congresso do PSD nas reportagens dos canais 5 e 12, ouvi Gonçalo Capitão, havia pequenos grupos a conversar, mas não vi ninguém a folhear o livro com que José Pacheco Pereira quis assinalar o acontecimento. E, a menos que a editora tenha a imaginação (e a coragem) de fazer banquinha à porta do Multiusos de Torres Vedras, não parece que ele vá ajudar os congressistas a devolver ao PSD o elan reformista que JPP julga perdido.
De modo que, tendo eu sido cúmplice de JPP nesse gesto de consequencias imponderáveis, que foi o de atrasar a hora do relógio na Rotunda que tem o mesmo nome - já lá vão 4 décadas - aqui fiquei, solidário e provavelmente solitário, a ler O Paradoxo do Ornitorrinco.
Perpassa também por estas páginas, inteligentes e vivas, um paradoxo. Diz JPP: "Cheguei lá (ao PSD) mais tarde do que muitos, embora mais cedo do que muitos outros, e isso torna a relação mais racional que afectiva, o que é um ónus particular, mas as coisas são como são". Só é possível, meu caro Zé, ir tão longe na análise de um corpo político, preocupar-se tão obsessivamente com o seu trajecto e o seu destino, se a relação, antes de racional, for afectiva. É por ser assim que o teu texto é tão acutilante e, para desgosto da tua razão, quixotesco. E quanto mais, mais interessante (e útil) a sua leitura.

 
Terra de Rainhas (2). Continuando a discutir o texto de Maria José Nogueira Pinto sobre Óbidos e Caldas 12 de Outubro

O confronto político agora gerado pela decisão de instalar nas Gaeiras um empreendimento comercial denominado "Plaza Oeste" (a propósito, ninguém se indigna com esta tola designação de "Plaza"?) ilustra bem tudo o que aqui escrevi a propósito do texto de Maria José Nogueira Pinto acerca das comparações Caldas/Óbidos.
De facto, não existe nenhuma distinção de modelo de desenvolvimento entre as lideranças políticas dos dois concelhos. Trata-se de um modelo que assenta no imobiliário, na criação de plataformas comerciais de média dimensão e algum investimento público. Se há diferenças - e certamemente existem - elas não se detectam na visão comum, mas sim em aspectos processuais. De facto, o concelho de Óbidos enfrenta um problema de dinamismo demográfico, enquanto o concelho das Caldas tem mostrado capacidade de atracção populacional. E, por isso, em Óbidos se tem dado prioridade ao mercado da segunda habitação, enquanto as Caldas continua a priveligiar a primeira residência. Naturalmente, que estes factores podem determinar que num e noutro concelho se parta em busca de segmentos socio-económicos não totalmente concidentes, mas não creio que em Óbidos se decidam estratégias como se as Caldas não existissem e vice-versa. O tal "outlet", ridiculamente baptizado "Plaza", só se instala nas Gaeiras porque há várias dezenas de milhares de consumidores habilitados com automóvel num raio de 10km.
Essa visão comum merece talvez uma discussão serena e aprofundada. Que novos valores urbanos foram criados por esta política de residência+plataforma comercial? De que forma se garantiu a sustentabilidade do investimento público? Foram fixadas novas actividades e serviços? Os equipamentos colectivos têm mais qualidade? O emprego aumentou? Com que solidez e qualidade? E o custo de vida para os residentes - desceu?
Maria José Nogueira Pinto invoca também a animação cultural, domínio em que não hesita em dar todo o benefício a Óbidos. Infelizmente não estou tão certo disso. Tenho acompanhado com atenção as iniciativas e o modelo de gestão cultural da Câmara, mas interrogo-me sobre as virtudes do conceito que lhe subjaz de "vila espectáculo" virada para o turismo de massas e alimentada por especialistas de marketing urbano. Também aqui há questões que importaria aprofundar. Que valores, actividades e oportunidades se criaram e fixaram em Óbidos? Que presente e, sobretudo, que futuro, se garantiu para o patrimonio - que investimentos na sua preservação e sustentabilidade foram efectuados?

 
Nadir Afonso: Praças   11 de Outubro
 
Praça de Oslo. Serigrafia. 1986
Plaza del Sol. Serigrafia. 1986
 
Efeito perverso 11 de Outubro

Certo dia, recebo uma assistente social que, e ao que a memória me diz, representava os serviços sociais do ministério da justiça. Vinha com a firme determinação de ajudar a resolver um problema relacionado com uma família com as características da zona envolvente: a uma pobreza chocante, associava-se uma habitação degradada e só com um quarto; tinham sete filhos, salvo erro.
As minhas tarefas exigiam-me um alucinante desdobramento. Para ganharmos tempo, propus que os visitássemos: fomos a pé, a distância era curta, e fomos conversando sobre as soluções.
Estávamos em plena segunda-feira. Aproximámo-nos da habitação e quando nos preparávamos para bater à porta demos com um papel com a seguinte inscrição: "só recebemos assistentes sociais às 5ª feiras das 13.00 às 14.00".

História "kafkiana" que pode ser lida na íntegra no blog "Correntes", de Paulo Prudêncio

Correntes
À janela (indiscreta) 10 de Outubro
 

Invertem-se os papéis e a cena muda de perspectiva. O voyeur - adormecido - é apanhado pela visita insperada. O que se passava lá fora, apesar de ruidoso, deixou de importar. Transição da sombra para a luz (3 nomes, 3 candeeiros) que desvela o branco da saia, em contraste com o preto da blusa e das sandálias.

O diálogo:

Lisa (L) - Como está a tua perna?
Jeff (J) - Dói um bocadinho.
L - O estômago?
J - Vazio como uma bola de futebol.
L - E a tua vida amorosa?
J - Muito parada.
L - Mais alguma coisa que te incomode?
J - Hum, hum, quem és tu?
L - Lendo de cima para baixo ... Lisa ... Carol ... Fremont.
J - És tu a Lisa Fremont que nunca usa o mesmo vestido duas vezes?
L - Só porque é isso que dela se espera.

 
Columbano e a loiça das Caldas 10 de Outubro
Um pequeno exercício de detecção da presença da louça caldense na produção artística de Columbano. Resultados aqui ao lado na página da Cerâmica.  
Fausto Correia 9 de Outubro
Para Fausto Correia, homem delicado e generoso, que sabia o valor da amizade (e contava, como ninguém, histórias intermináveis de Miguel Torga e Fernando Vale):  

Ficam as Sombras...

Não. Não podeis levar tudo.
Depois do corpo,
E da alma,
E do nome,
E da terra da própria sepultura,
Fica a memória de uma criatura
Que viveu,
E sofreu,
E amou,
E cantou,
E nunca se dobrou
À dura tirania que a venceu.
Fica dentro de vós a consciência
De que ali onde o mundo é mais vazio
Havia um homem.
E sabeis que se comem
Os frutos acres da recordação...
Fantasmas invisíveis que atormentam
O sono leve dos que se alimentam
Da liberdade de qualquer irmão.

Miguel Torga

Revisitar Torga
A convite do poeta Manuel Simões, Fausto Correia esteve a 16 de Maio em Leipzig para falar de "Miguel Torga - 100 anos, vida e obra", onde apresentou alguns livros e outros objectos que marcaram a sua ligação pessoal a Torga (uma prova de que a amizade não tem idade, nem fronteira)  
Mediadores de confitos procuram-se 8 de Outubro
Uma boa ocasião para pôr à prova o CEMEAR (Centro de Mediação e Arbitragem de Óbidos): o diferendo do "Plaza Oeste" (que nome extraordinário! deve ter sido inspirado numa cidade americana da fronteira com o México) que opõe os executivos municipais das Caldas e de Óbidos.  
Rua das Montras II 8 de Outubro

A renovação comercial do segmento da Rua Heróis da Grande Guerra entre o cruzamento com as Ruas Miguel Bombarda e Cândido dos Reis não pára, em consequência das obras que a encerraram ao trânsito automóvel.

 
À janela. Poemas para a Inventada 8 de Outubro

VIII
Manhã perfeita
que nenhuma dor prolonga
para além da suspeita
de chorarem avenas
nas fontes sequiosas ...

Manhã em que tudo é superfície apenas,
superfície longa
nas pedras e nas rosas ...

(Manhã em que cismo:
dêem-me um abismo!)

XIV
Vou inventar uma flor
para pôr no teu cabelo.

Uma flor com asas de lume
donde, em vez de perfume,
saiam sons de violoncelo.

E eu possa dizer à Terra:
"Sim. Bendito seja o teu ventre entre as mulheres.
Mas basta de malmequeres!"

XV
A este desespero azul
de te querer sempre ao pé de mim
chamam os homens amor.

Mas o amor é outra raiva
de arrancar o sol da lua.
É andar com andorinhas na algibeira,
a dependurá-las na chuva ...

José Gomes Ferreira, Electrico.
Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1956
[As poesias de Electrico foram improvisadas e compostas nos carros electricos de Lisboa nos anos 1943, 1944 e 1945]

 
Nossa Senhora do Povo 7 de Outubro

Leio no Jornal das Caldas de 3 de Outubro esta intrigante passagem de uma intervenção do Capelão do Centro Hospitalar das Caldas da Rainha no decurso de uma palaestra que proferiu recentemente na Igreja de Nossa Senhora do Pópulo: "Certamente que o nome da Igreja do Pópulo de Caldas da Rainha tem que ver com a Igreja de que o Cardeal [D. Jorge da Costa, Cardeal de Alpedrinha] era titular. O título italiano não quer dizer Nossa Senhora do Povo, mas sim Nossa Senhora do Choupo, árvore que em Roma dava o nome da Praça. Não consta que em Caldas houvesse uma árvore que tenha ficado para a história".
Peço licença ao Sr. Padre Eduardo Gonçalves, por quem tenho o maior respeito e estima, para vir a público (e só o faço porque estas suas afirmações foram públicas e transcritas em jornal) afirmar que o que disse pode originar interpretações que carecem, a meu ver, de fundamento.
O culto da Madonna del Populo tem raízes na Itália, tendo-se espalhado por toda a Península, sobretudo na Renascença e no Barroco. Existem aí dezenas de Igrejas ou capelas da invocação da Senhora do Pópulo ou da Santa Maria do Pópulo e nenhuma foi alguma vez identificada como Senhora do Choupo. A história do culto mariano - de que certamente o Sr. Padre Eduardo terá um conhecimento muito superior ao meu - mostra que a adopção do nome Populo para designar a Virgem Maria corresponde, nos finais da Idade Média, a um movimento de aproximação de Maria ao povo crente, uma humanização da figura hierática e distante que os primeiros tempos do cristianismo, sobretudo os vivios no contexto bizantino, tinham consagrado . A Senhora do Pópulo é a Nossa Senhora que se condói do povo que sofre, nomeadamente do povo que é flagelado pela peste. E de facto, a consagração de Igrejas e Capelas italianas à Madonna del Populo surge frequentemente associada à eclosão de pestes e é o resultado da contribuição anónima do povo para a respectiva edificação.
O cardeal de Alpedrinha a quem é atribuida a sugestão do nome - Santa Maria do Pópulo - a que a Rainha D. Leonor dedicou o Hospital e a Igreja das Caldas, não ignorava o nexo de devoção estabelecido em Itália entre Nossa Senhora do Pópulo e os pobres e os enfermos. E que é a obra de D. Leonor nas Caldas senão obra de protecção aos pobres e aos enfermos?
A escolha de Nossa Senhora do Pópulo não é fortuita nem arbitrária. Foi o resultado de consultas e foi amadurecida no decurso da elaboração do Compromisso do Hospital, entre 1507 e 1512. Tem um sentido profundo que Frei Agostinho de Santa Maria interpretou e exprimiu em 1707 nos seguinte termos "O Título que a Rainha Dona Leonor deu à Senhora, foi o do Populo, e o motivo que teve para isso foi não só por ser a única paróquia, a Matriz e a cabeça daquela vila e povo das Caldas; mas verdadeiramente parece por especial luz do céu. Via aquela devota Princesa os muitos e grandes favores e benefícios que a Mãe de Deus fazia a todos os pobres e pessoas populares, aos miseráveis e desvalidos e que no mundo vivem sem amparo, nem remédio, os quais saíam dos banhos daquela medicinal água com milagrosa saúde, assim como a sua ardente caridade para com os pobres, esperava que a Mãe de Deus e Mãe de todos os pobres, Maria Santíssima, havia de continuar aqueles seus favores em todos os pobres que, de todas as partes e povos, concorriam a buscá-la em aquela sua verdadeira e probática Piscina de todos os achaques".

 

Santa Maria del Populo (sec. XIV)
Chiesa de Santa Maria del Populo, Roma

Josefa de Óbidos, Nossa Senhora do Populo, 1670-1680
Museu do Hospital e das Caldas

A louça com motivos sexuais das Caldas da Rainha 6 de Outubro

A este tema que, não nego, constitui um centro de interesse autónomo na produção de cerâmica das Caldas da Rainha, nunca dediquei particular atenção. Em primeiro lugar porque as fontes - tanto documentais como patrimoniais - que consultei para o estudo da história do centro cerâmico caldense ignoram ostensivamente este segmento de actividade. Em segundo lugar porque a sobreposição das chamadas "malandrices" ao conceito de "louça das Caldas", que é um fenómeno provavelmente da segunda metade do século XX, sempre me pareceu "injusta" para a louça de inspiração naturalista que, desde meados do século XIX, constitui de facto, pela sua persistência, exigências técnicas e qualidade estética e de fabrico, um traço identificador da cerâmica das Caldas.
Na primeira metade da década de 90, acompanhei a investigação do Doutor João Pina Cabral, de quem era colega no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, sobre a louça genital das Caldas e registei as suas diligências para a aquisição pelo Laboratório de Antropologia da Universidade de Coimbra de uma colecção de peças à venda na Praça da cidade. Nome destacado dos estudos antropológicos, João Pina Cabral viria a dedicar a esta "louça das Caldas" um ensaio apresentado em 1992 na London School of Economics and Political Sciences e publicado no ano seguinte na revista Man (nº 28, 1), com o título Tamed Violence: Genital Symbolism in Portuguese Popular Culture (este trabalho foi incluido, com o título em portugês de A ordem fálica na obra O Homem na Família: 5 Ensaios de Antropologia, publicada em 2003). Em Fevereiro de 1996, participou no Colóquio sobre Cerâmica Portuguesa Moderna que a associação PH organizou no Museu de José Malhoa, para apresentar e debater a sua investigação sobre a função do acto de imposição do falo que se revela nas diversas formas da olaria de inspiração sexual caldense. Nessa sessão participou a Dr.ª Teresa Perdigão, antropóloga também, que tinha realizado uma pesquisa junto dos produtores desta louça, julgo que em estreita articulação com o Doutor Pina Cabral. Devo porém confessar que a minha curiosidade de historiador não recebeu então grande impulso por parte desta nova perspectiva, da antropologia.
Reapareceu-me o tema, porém, uma década mais tarde, desta feita por via de uma iniciativa de alunos e colegas da ESAD, em Março de 2006. Pretendiam a minha colaboração para uma obra multidisciplinar, de discussão sobre as fronteiras entre pornografia e erotismo, a pretexto da louça sexual das Caldas, genericamente intitulado PiloCaldas. Aceitei o repto, mas a minha colaboração incidiu no mito "Leda e Cisne", um mito onde a sedução astuciosa de uma mulher remete para as relações complexas entre o mundo dos deuses e o dos homens. Sucede que esse mito teve um tratamento recente num projecto de grande envergadura do ceramista caldense Ferreira da Silva, que nele recuperou uma tradição olárica de figuração sexual tanto do masculino como do feminino. A comunicação que apresentei, em Junho de 2006, procurava estabelecer um paralelo de transgressões entre as ordens divino/humano, artifício/natureza, arte/cerâmica numa relação ambivalente de violencia/anuência. Publiquei parte desta investigação na obra saida já em 2007 com o título pouco convencional de Do Proscénio de Plauto ao Plateau da Playboy, de Ovidio ao Homovideo: uma Compilação Erótica, na qual se insere o meu pequeno texto Leda e o Cisne: Mito. Artes e Cerâmica (encontra-se igualmente disponível neste site, página Cerâmica, como link de um texto sobre Ferreira da Silva).
Em vão se procurará nesta obra um ensaio, uma investigação sistemática, uma pista sugestiva sobre a louça popular de motivos sexuais que se produz nas Caldas. Além de uma página respigada ao acaso do ensaio de João Pina Cabral, há uma reportagem jornalística junto do ultimo fabricante de "malandrices", com os lugares-comuns habituais do género. Tendo em conta que este projecto tinha como lei-motiv exactamente o que alguns tratam como louça emblemática das Caldas, o "PiloCaldas" ficou muito aquém do objectivo enunciado. E ficou por uma razão simples: não há investigação sobre este tema, não há hipóteses novas que guiem a pesquisa. Repetimos até à exaustão uma história duvidosa sobre as origens desta produção, em vez de problematizarmos e procurarmos respostas ás interrogações fundamentais do facto histórico: quando, porquê, como.
Foi pois em reacção a este vazio de compreensão que me decidi a integrar a questão da louça genital das Caldas no quadro das pesquisas sobre a história do centro cerâmico caldense. A primeira hipótese de trabalho formulei-a depois de ler um texto da Dr.ª Maria da Conceição Parreira Colaço, que está a preparar uma dissertação sobre o tema. O diálogo (em curso) com esta investigadora e a discussão do tema pode ser seguido do aqui ao lado em "Cerâmica".

 
O Lisbonense 5 de Outubro

Independentemente do destino que cada um ache que o Lisbonense merece, o comportamento da entidade que tem a seu cargo a contrução do edifício é absolutamente inaceitável. A fiscalização técnica e a responsabilidade decisional da Câmara das Caldas está posta à prova. Há um desrespeito pelos compromissos assumidos que ronda a má fé. Mas há sobretudo um desprezo intolerável pelo passado de um edifício significativo da nossa história. Tudo foi feito, durante anos, para que ele se desmoronasse. Mas resistiu, com a resistência de uma boa contrução. Depois argumentou-se com a falta de solidez das estruturas que tinham permanecido de pé, o que se revelou ser falso. Na Gazeta das Caldas, tais argumentos foram definitivamente desmontados e criticados por um especialista da matéria, Pedro Ribeiro, engenheiro civil da equipa de João Appleton. Agora que se impunha a consolidação das paredes, os construtores parecem apostados antes em obrigá-la a novo esforço. É desta vez que conseguirão vergar o que resta do velho Lisbonense? Se a passividade da Câmara persistir, este crime terá cumplices.

Pedro Ribeiro, Gazeta das Caldas
 
Paula Rego e Rafael Bordalo Pinheiro 4 de Outubro

1. Da entrevista publicada a 22 de Setembro no "El País":
P. Cuando se comenta su trabajo se le suele relacionar con el de artistas tan diversos como De Chirico, Arshille Gorky, Balthus, Chagall. ¿Qué opina de ello?
R. Yo siempre he admirado mucho a Daumier, James Ensor y Goya. También me ha interesado Gorky durante una época. Chagall me interesa menos porque a veces lo encuentro demasiado sentimental. Me gustan los artistas satíricos, como el portugués Bordall Pinheiro.

2. Da entrevista publicada a 23 de Setembro no "Jornal de Notícias"
P. Quais são os pintores que mais a influenciam e que mais admira?
R. Goya, Bordalo Pinheiro - era ceramista, mas sempre me atraiu o seu lado cómico, até grotesco, que tem muita força - e Picasso. Gosto essencialmente do "Minotauro" do Picasso.

3. Da entrevista publicada no Expresso- Revista, a 31 de Maio de 1997.
P. Mas sente proximidades em relação a outros artistas?
R. Não, nenhumas. Só com o Bordalo Pinheiro. Se tenho alguma coisa em comum com alguém, é com o Bordalo Pinheiro. É português e foi ceramista e um grande desenhador. O resto não.

4. A Sereiazinha, um pastel de 2003, exibe um apontamento "bordaliano" (ou, mais rigorosamente, um registo alusivo à louça caldense do estilo "neo-palissy" cultivado por Rafael Bordalo Pinheiro e outros ceramistas caldenses da época).

P. Rego no "El Pais"
P. Rego no J. N.
P. Rego ao Expresso
P. Rego na Gazeta das Caldas (Nicolau Borges)
Correspondência 2 de Outubro
Confesso que me entusiasma a possibilidade/projecto de ainda podermos ter a Paula Rego nas Caldas. É sabido e público a admiração que a pintora tem por Bordalo, reafirmou-o, na semana passada, ao "Expresso" e ao "El País". De que estamos à espera?
Nicolau Borges (2 de Outubro)

A estadia de Paula nas Caldas já esteve "combinada". Podemos tentar outra vez.

 

Memória e imaginação são de facto os ingredientes vitais do espectáculo.
Fernando Mora Ramos (1 de Outubro)

   

Partilho totalmente a mesma opinião. Gostei muito.
Margarida Araújo

   

Simplesmente fabulosas as histórias dos dragões.
Quantos mais ainda virás a encontrar?

Maria Isabel Castanheira (27 de Setembro)

Falta-me um. Quem me ajuda a descobri-lo?  
(...) o post sobre a enorme Paula Rego. É um post que faz lembrar as cerejas.
Paulo Prudêncio (26 de Setembro)
   
(...) de Maria José Nogueira Pinto. O pior é que todos gostam cada vez mais das guerras estéreis e cada vez menos da colaboração inteligente e honrada, salvo raras excepções, claro.
Isabel Xavier (23 de Setembro)
   
(...) que a minha Alice tivesse honras na [tua] página!
Ela teria adorado.
Por ela te agradeço.

Ana (20 de Setembro)
   
Cartas para cima 30 de Setembro

António Lobo Antunes, em entrevista hoje publicada no Diário de Notícias:
"Isso [o cancro, o contacto com o sofrimento]alterou a sua forma de ser?
Eu agora jogo com as cartas para cima, está tudo à vista, porque é a única maneira de viver. Demorei anos a perceber, porque o conhecimento da vida chega sempre tarde e pensamos que ocultando conseguimos dar boa imagem aos outros. Agora é: eu sou assim! Peguem, larguem, não posso ser amado pelo mundo inteiro, embora a sede de amor seja inextinguível". |

Entrevista a A. L. Antunes
 
Património 29 de Setembro

Presença, ontem nas Caldas e hoje em Peniche, em sessões integradas nas 24.as Jornadas Europeias do Património. Em Peniche, organização da Câmara Municipal, em parceria com as associações de estudo e defesa do património, nas Caldas, organização da associação Património Histórico. Em ambas, casa cheia, o que sinaliza o interesse do tema, a preocupação dos cidadãos, a oportunidade do debate.
Embora existam algumas diferenças de situação entre Caldas e Peniche, podemos dizer que o principal, a tarefa prioritária, está por fazer nos dois concelhos: o inventário.
O inventário é um trabalho árduo, moroso, que exige um conjunto de operações meticulosas e a, bem dizer, é uma operação que impõe actualização permanante. Nesse sentido, é um dossiê que nunca se pode dar por encerrado. Mas o que sucede, nas Caldas, como em Peniche, e noutros concelhos desta região, é que nunca foi sequer iniciado. Que vestígios, que colecções, que marcas significativas e representativas do passado existem em cada uma das freguesias? Tem as autarquias conhecimento rigoroso do património histórico que lhes pertence? E as paróquias? E as empresas, tanto do meio rural como urbano? E os particulares? A resposta é: não têm, e o pouco conhecimento que têm é fragmentário, mal documentado e mal divulgado.
Como actuar sobre o património, se não há inventário? O instrumento primeiro da gestão do património é o inventário: sem ele não é possível identificar os problemas, definir intervenções, adoptar planos de defesa, promover a valorização turística e cultural.
O segundo instrumento de gestão são os centros interpretativos, organismos de âmbito municipal (ou intermunicipal ou inframunicipal), onde se conserva o conhecimento sobre o património e sobretudo onde se realiza a divulgação sistemática do património em interface com o público e com os detentores do património. Também neste domínio o que há, quando há, é manifestamente inapropriado ou insuficiente. Estarão as Câmaras Municipais dispostas a discutir seriamente este assunto e investir na inversão desta situação calamitosa?

 
 
Maria Isabel Castanheira apresentou no Populus esta montagem bem humorada sobre o património caldense, com a ajuda de desenhos de Rafael Bordalo Pinheiro
Interrogação 29 de Setembro
Resultados conhecidos esta madrugada causam perplexidade nos comentadores de serviço (ausentes em parte incerta) e provocam reacções fortes (José Pacheco Pereira, Paula Teixeira da Cruz). Não quero comentar os resultados, mas confesso que achava provável a vitória de Luis Filipe Menezes. O PSD é um partido que gosta de premiar os que não desistem após uma primeira derrota. Que repercussões terá, entretanto, este desfecho do combate interno do PSD na vida política regional? A televisão mostra um pequeno cortejo de dirigentes sociais democratas de Óbidos e Bombarral felicitando o novo líder. Não tenho explicação para o alinhamento das Caldas e de Fernando Costa com Marques Mendes. Se a memória me não falha, esta concelhia era apoiante de Pedro Santana Lopes.  
Paragem obrigatória 27 de Setembro

Ensaio geral da nova produção do Teatro da Rainha (desta vez, com o Centro Cultural Malaposta): "A Estação Inexistente", um texto constituído por duas peças de dois autores, Luigi Pirandello e Rocco D'Onghia.
Um dos aspectos mais interessantes desta produção reside, a meu ver, na articulação das duas peças, um desafio exigente que só podia ter sido aceite por quem entende o teatro como trabalho sobre e partir de um texto. "O Homem da flor na boca" é uma peça de Pirandello dos anos 20 do século passado. A peça de D'Onghia, um autor nascido em 1956, foi apresentada pela primeira vez em 2000, na Maratona de Milão, com o título "Um contínuo movimento, um estranho equilíbrio". A primeira é uma provocativa reflexão sobre o real que nos espreita por detrás dos pormenores banais do dia a dia, efectuada por um homem ameaçado pela morte. A segunda é uma incursão do sonho do amor jovem transportado por um velho senhor até à estação perdida da grande metrópole habitada por duas figuras desamparadas. O contexto de ambas remete para uma estação ferroviária e daí a continuidade do cenário: o quase monólogo de Pirandello envolve alguém que, tendo perdido o comboio, se depara num bar com um frequentador loquaz; e a acção de "Um contínuo movimento..." decorre num depósito de comboios onde dois operários procedem á respectiva limpeza (Dafne - Isabel Lopes - e Roman - Carlos Borges). Imaginação e memória alimentam os discursos das personagens, o homem da flor (aliás, do tumor) e o velho senhor (o mesmo actor, Victor Santos). Imaginação que ora disseca a experiência vivida (o homem da flor), ora funciona como um farol no deserto urbano (o velho senhor). Memória que ora se ergue contra as aparências e as ilusões, ora se despoja até se confinar ao único sentido: o da beleza.
Uma companhia madura, uma encenação inteligente. Uma produção competente. Um texto, como vimos, surpreendente e cativante. E um espaço antigo, o sótão das lavandarias do hospital, ganho para a cidade e para a cultura.
Obrigado Teatro da Rainha, obrigado Fernando Mora Ramos.

[Fotos de Margarida Araújo]

O homem da flor...
Um contínuo movimento...
 
O homem da flor na boca
Um contínuo movimento, um estranho equilíbrio
Paula Rego em Madrid 26 de Setembro

1. Uma retrospectiva, formada por cerca de duas centenas de quadros de Paula Rego no Museu Rainha Sofia, em Madrid, em simultâneo com uma mostra da sua obra gráfica na Galeria Marlborouhg. Um bom motivo para voltar a Madrid, logo que possível.

2. Gostaria que fosse possível ainda um dia concretizar um desejo que Paula Rego me confidenciou há algum tempo: o de permanecer nas Caldas durante uma ou duas semanas para experimentar trabalhar o barro. Falou-me então do seu fascínio por Rafael Bordalo Pinheiro. Mais tarde, fiz-lhe chegar um exemplar do catálogo da exposição de louça de Bordalo realizada em S. Paulo, comissariada por Paulo Henriques (1996).

3. Paula Rego está presente na rede, em inúmeros sites. Destaco dois: o do departamento de Espanhol e Português da Faculdade de Línguas Medievais e Modernas da Universidade de Cambridge, onde se pode ver mais de uma centena de reproduções de algumas das mais importantes obras da pintora; e o da Galeria Saatchi, de Londres, onde, no espaço dedicado a Paula Rego, além das imagens, há notas explicativas, uma selecção de textos publicados na imprensa britânica sobre a sua obra e uma lista de sites com informação relevante.

Museu R. Sofia
Gal. Marlborough
Univers. Cambridge
Saatchi Gallery
 
Expedição à Charneca 21 de Setembro

Em busca de um S. Jorge combatendo o dragão. Pista fornecida por Elsa Rebelo. Uma surpresa patrimonial para mim - e certamente para Bordalo Pinheiro que fez uma escultura que o povo carregou em procissões. Guiado pela vivacidade de Leopoldina Marieto. Registo de uma bela história patrimonial que passo a narrar (informações complementares com imagens aqui ao lado, em Cerâmica).
Em 1898, Manuel Gonçalves Feijão, abastado proprietário do lugar da Charneca mandou erguer uma capela junto à estrada que ligava esta povoação à sede do concelho, Pombal, distante cerca de 3 quilómetros. Diz-se que desta forma pretendia afastar o povo da capela anexa à sua própria casa, cujo recato queria preservar por ter alguém muito doente na família. Mas Manuel Feijão não se limitou a oferecer um local de culto aos camponeses da Charneca, quis assinalar a nova capela com uma obra artística e encomendou nas Caldas, cujas termas provavelmente frequentava, um S. Jorge a Rafael Bordalo Pinheiro.
O resultado não poderia ter sido mais impressionante: um conjunto escultórico de 96 cm de largura por 120 de altura, em barro pintado e vidrado, onde um S. Jorge, montado num cavalo castanho, espeta uma lança certeira na boca de um dragão que se agita num derradeiro estertor. Manuel Feijão não deu por mal empregue o seu dinheiro, tanto mais que julgou reconhecer no ainda jovem cavaleiro, de bigode e barba "passe-partout", a sua própria figura. E logo mandou vir da Charneca um carro de bois e dois homens para o ajudarem a carregar as 12 arrobas de cerâmica que acabava de adquirir. Durou uma semana esta operação. Estávamos em 1899. Um novo século despontaria em breve.
Na pequena povoação da Charneca, o S. Jorge despertou curiosidade e entusiasmo. Em toda a região, Jorge era um santo de grande devoção. Todas as igrejas e capelas possuiam uma imagem do santo, que protegia os animais de lavoura, mas nenhuma da dimensão e da qualidade artística daquela que viera das Caldas. "S. Jorge Combatendo o Dragão" foi colocado em local de honra, venerado com promessas e orações, erguido em ombros a 15 de Agosto, na procissão da festa anual da Charneca. Esta diligência era tão pesada e exigente que aos 4 homens que dela se ocupassem garantia a comissão de festas um garrafão de 5 litros de bom tinto da região. No final da catequese, os miudos eram levados a bater com a cabeça contra os cornos do dragão, assim se penitenciando e prevenindo disparates e até malvadezas.
Hoje já não há procissão nem catequese e a obra de Rafael Bordalo Pinheiro está defendida numa das paredes laterais do pequeno transepto da capela por uma redoma de vidro. Os responsáveis pela limpeza e vigilancia da capela, à cabeça das quais está a Sr.ª D.ª Leopoldina, reuniram informação sobre o autor e a escultura, a qual imprimiram a plastificaram para conhecimento dos visitantes. Dizem, com orgulho, que o seu S. Jorge não é apenas o melhor da região, mas o maior e o melhor de todos os que sairam das mãos de Bordalo.
Um longo caminho centenário foi percorrido até á patrimonialização: produção, uso, atribuição de significados. Perda das funções de uso. Atribuição de outros significados. Recuperação e valorização patrimonial do objecto. Adopção de dispositivos museológicos.

 
Um ano 20 de Setembro

Há um ano que esta teimosia começou. Como coisa de professor. Depois, sem deixar de o ser, foi-se desdobrando. Agora tem uma extensão semanal na Gazeta das Caldas.
De José Mário Branco, a quem pedi emprestado o nome:
Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei p´ra´qui chegar
Eu vou p´ra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos p´ra nos dar

 
Distritos 15 de Setembro

Segundo o "Diário Digital", o PSD Porto vai propor ao Congresso do Partido a defesa da adopção das NUTs 3 como base territorial para a definição dos círculos eleitorais.
Se esta (boa) ideia pegasse, os distritos, esse equivoco maior da organização do território em Portugal, teriam finalmente o seu enterro. "Cadáveres adiados que procriam", não são nem nunca foram territórios. A sua existência arrasta-se há tempo demasiado apenas porque são círculos eleitorais, ou seja, o enquadramento de que precisam os presidentes das federações para regatear com os presidentes de partidos os lugares elegíveis da lista de deputados.

Diário Digital
 
Devem os museus deixar de cobrar entradas? 15 de Setembro

Berardo desafiou o Ministério da Cultura a declarar a gratuitidade do acesso aos museus, reflectindo sobre a experiência do Museu que tem o seu nome. Em França, o debate está instalado, depois que o Presidente Sarcozy incluiu a medida no seu programa eleitoral e a Ministra da Cultura anunciou a entrada em vigor a partir do dia 1 de Janeiro, de um programa experimental de acesso gratuito, aplicável a 9 museus. Ficam de fora, para já, os grandes museus (Louvre, Pompidou, Quai d'Orsay). A medida não gerou unanimidade entre os responsáveis. Alguns directores consideram o pagamento de entrada um obstáculo à divulgação das suas colecções e saudam a medida. Mas há quem considere que a imagem do museu sai afectada e o recurso ao mecenato, essencial para garantir as exposições temporarias, prejudicado. No Le Monde de ontem, ensaia-se um balanço de experiências anteriores. "Na Grã Bretanha as colecções permanentes passaram a ser gratuitas em 2001. Os museus municipais de Paris deixaram de cobrar entradas em 2002. Em ambos os casos, a medida fez disparar o número de visitas, com dois senões: "regista-se de princípio um efeito de lua de mel, mas a seguir a frequencia sofre uma quebra" sublinha Anne Gombault, responsável pela cadeira de Gestão de Artes e Cultura na Escola de Gestão de Bordeaux. (...) Os grande beneficiários da gratuitidade são sobretudo ... os visitantes assiduos do museu. "As pessoas voltam, estão mais distendidas, insiste Catherine Hubault, sub-directora do Património da cidade de Paris. A imagem do Museu mudou, mas não a idade e o perfil sociologico dos visitantes".

 
Terra de Rainhas (1) 14 de Setembro
O texto com que Maria José Nogueira Pinto se referiu a Óbidos e Caldas, há cerca de um mês, foi integralmente transcrito na Gazeta. Criou-se assim a oportunidade para expor algumas das questões que a sua leitura suscita, na sequência da nota que aqui publiquei a 17 de Agosto.
Aludindo à sua experiência vivida na região, nomeadamente como deputada municipal nas Caldas nos anos 90, recorda que então "a comparação entre Caldas e Óbidos era recorrente e não escondia uma certa competição". Para Maria José Nogueira Pinto, no entanto, essa "discussão estéril escondia o essencial" que residia, sim, no modelo de modernização e desenvolvimento.
Em certo sentido, porém, este texto incorre no mesmo erro que identificou no passado. Ele participa na competição, que persiste, entre Caldas e Óbidos e foi lido como uma peça intencional da comparação entre os dois municípios. Arrisca-se justamente a reforçar a "discussão estéril" que "esconde o essencial".
Sucede que eu estou de acordo com o diagnóstico primeiro de Maria José Nogueira Pinto e não me parece nem pertinente nem útil estabelecer disjunções entre Óbidos e Caldas. Essas disjunções, sempre baseadas em critérios de mera ocasião, fixam animosidades e desconfianças entre responsáveis, legitimam atitudes de não cooperação entre instituições, criam um terreno propício à manipulação das opiniões. São o resultado de calculos de oportunidade e, se pouco adiantam para que se compreenda o estado das coisas, em nada contribuem para a sua mudança.
O tipo de análise claro/escuro que Maria José Nogueira Pinto utiliza é redutor e não constitui, por isso, uma via adequada para intervir num debate sobre os modelos de modernização e desenvolvimento de cada um dos municípios. É redutor, não porque não haja claros e escuros, mas porque certamente há claros e escuros em cada um dos modelos. Além disso, por mais inflexíveis que sejam as barreiras entre concelhos, há hoje dispositivos supramunicipais suficientes para impor coordenações e ajustamentos entre municípios vizinhos, de forma que é no plano da região que o saldo se apura e o claro/escuro se percebe melhor.
Os concelhos não são ilhas. Nunca o foram, mas hoje são-no ainda menos. De facto, formam arquipélagos. Sabem-no os produtores, os consumidores, os agentes institucionais. As decisões tomadas em Óbidos pressupõem uma cuidada avaliação de condições em que a oferta e a procura caldenses entram em conta. E vice-versa. Se os dirigentes políticos não só entenderem isto, mas perceberem a oportunidade que representa, as decisões que lhe competem terão mais capacidade reguladora e certamente mais transparência e qualidade. Exemplo: a localização e o dimensionamento das plataformas comerciais de maiores dimensões deveria ser objecto de estudo conjunto pelos dois municípios. O mesmo relativamente às zonas industriais de nova geração.
Esta a primeira questão. A segunda respeita ao critério comparativo que assenta em dois items: gestão cultural e urbanismo. Abordá-la-ei na próxima semana.
M.J.N.Pinto
 
(In)credulidades 13 de Setembro

A Sky News foi a primeira a ser avisada que Madeleine tinha desaparecido e acreditar que tinha sido raptada. Rapidamente, todo o mundo aderiu a essa tese, tendo presente o caso recente da jovem austríaca durante anos mantida em sequestro. Um volte-face na investigação do ultimo mês chegou agora à opinião pública, sobretudo depois de os pais da criança terem decidido voltar a Inglaterra. Aparentemente, a consistência dos indícios da primeira como da segunda tese é muito frágil. Mas como é possível que a tanta mediatização corresponda tão pouca informação? Ou, se quisermos, a tanta informação corresponda tão pouco conhecimento?
Num aspecto, alguém foi bem sucedido com esta segunda operação: a Praia da Luz, o Allgarve, a PJ, o orçamento, as relações externas viram-se livres dos McCann.

 
Comentário a "O ensino nas políticas urbanas" 12 de Setembro

É só para lhe manifestar o seguinte: passo sempre pelo seu site e leio com atenção o que escreve; acabei agora de ler a edição na internet da Gazeta das Caldas e fiquei muito satisfeito quando li o [seu] texto.
Paulo Prudêncio.
Resposta: Obrigado. Vamos organizar um seminário para aprofundar este tema?

 
Destino ou trajecto, apenas? 2 de Setembro

"A meio do ciclo político deste Governo, se o país está cansado, o Governo está exausto, com excepção do primeiro-ministro, para quem governar tem uma parecença próxima com o jogging, com as vantagens e os defeitos de uma actividade que não se caracteriza por ter um destino, mas sim um trajecto."José Pacheco Pereira, "Pôr os Pés na Terra", 2 de Setembro de 2007.
Pode não ter um destino, mas serve objectivos. Neste sentido, o jogging é um método. JPP sabe-o.

Abrupto
 
Memorial da Berlenga 2 de Setembro

Regressado da Berlenga, numa missão comandada pelo Mestre António José Correia, procuro na estante o Memorial da Berlenga . Na praia do Carreiro do Mosteiro, iluminada por archotes, assisti à projecção de uma montagem de imagens (fotografia, desenho, ilustração) sobre as paisagens, a fauna e a flora da ilha. A exposição intitulada Expedição Berlengas: esboços de naturalistas ficará certamente a constituir um marco no registo de imagens da Berlenga. Não pude deixar de evocar Varela Aldemira, pintor e professor da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, que em Agosto/Setembro de 1932, aceitou ser o primeiro hóspede da pousada do Forte de S. João Baptista, cujas obras de adaptação então se concluiam. O diário que redigiu, acompanhado de diversos desenhos, publicou-o em 1956, com o título Memorial da Berlenga: Meditações Estéticas, Lembranças, Confidências, Paisagens . Procuro os dias 1 e 2 de Setembro de há 75 anos. Transcrevo duas breves anotações:
"Quinta-feira, 1 de Setembro de 1932 - Desencadearam-se os ventos, Austro e Bóreas à compita ferindo as arestas graníticas do meu reduto; buzinam as fendas das muralhas, assobiam as gretas dos escarpamentos e toda a ilha ressoa como um órgão gigantesco. O tempo não convida ao banho e às pinturas. Leio, escrevo e sonho ...
Sexta-feira, 2 de Setembro de 1932 - Na vazão matutina, retiraram para Peniche os últimos operários da Fortaleza, sob a direcção do mestre Abílio. Despiram os farrapos do trabalho, indo "pra terra" com fatiotas de ver a Deus; safaram-se da ilha onde flutuaram durante um mês, não vá ela afundar-se como uma das Maldivas, submergida no século passado.
Muitas asas de insistentes volatas no anil do céu; os musgos suspensos na boca das grutas, dormem à sombra dos rochedos sotopostos de açafrão esparramado. E este mar glauco, o mar português a quem devo a saúde e a vida, completa o quadro a convidar-me para a pintura. A Natureza é o modelo ideal, fonte de motivos justos, exactos, sempre às ordens, pontuais nas sessões dos programas de estudos. Mas, reparando bem, só em parte é assim. O mais irrequieto dos modelos é a Natureza: as nuvens galopam, aparecem e somem-se; o Sol joga às escondidas na sua trajectória; chove ou não, desmentindo as previsões meteorológicas; Eolo é inconstante como a luz revulsiva, fulgurando aqui, sumindo-se além num desmaio, para reaparecer acolá na estultícia de imprevistas e alarmantes alacridades. (...) A Conceição, único anjo da guarda desta pequena república, previne-me da escassez dos mantimentos, em especial a falta de pão. Haja paciência e ninguém ficará estomagado, pois o bom comer faz mau dormir. Barriga cheia e cara alegre é lá em terra. Aqui o jejum não mata e engorda.
Mas à tarde desembarcam provisões e dois barris de tinto, espesso e negro como tinta. Pronto! Já estão nas suas tamanquinhas os dessedentados, a bazofiar lausperenes no pátio dos milagres, latagões uns, secos madrigazes outros, acusando a degenerescência da vinhaça. De viseira caída, atarracado na sua blusa cor de musgo, o Porfírio vem lembrar-me a promessa do "ritrato". Vamos a isso! (pags 177 e 193-194).

 
O ensino nas políticas urbanas 1 de Setembro

A qualidade da oferta de ensino básico e secundário pesa cada vez mais nas escolhas do local de habitação. A massificação escolar teve este efeito perverso: o nível de exigência no ensino parece ter decaído. Os pais sabem hoje que o êxito do percurso escolar dos seus filhos depende em elevado grau da preparação adquirida nos níveis iniciais de escolaridade. As políticas urbanas estão a integrar este dado como um factor cada vez mais importante da competitividade das cidades. A escola é um elemento fundamental do dispositivo de segurança "social" das cidades. É por isso que faz todo o sentido que as autarquias se ocupem do sistema escolar, desde o pré-primário e básico até ao secundário. E encontrem com a escolas e os professores um modelo dinâmico de apoios e incentivos que permita qualificar a aprendizagem, estimular a inovação e premiar o bom trabalho.

 
Santiago 31 de Agosto

Visita a "No Caminho sob as Estrelas", uma bela exposição patrimonial que pode ser vista na Igreja matriz de Santiago do Cacém. Com excelentes peças oriundas da Galiza e de várias instituições portuguesas, designadamente da região de Beja, José António Falcão, comissário da exposição, reconstitui os sentidos das peregrinações após o ano Mil, as diversas iconografias de Santiago, as representações dos fenómenos religiosos e sociais tanto o culto como a ordem de Santiago originaram. Uma reconstituição inteligente e apaixonada que sublinha o trabalho competente que este investigador de arte vem desenvolvendo à frente do Departamento do Património Histórico-Artístico da Diocese de Beja.
Entre muitas outras, destaque para três surpresas. A primeira: um alto-relevo do século XIV, que integra o património da própria Igreja de Santiago, cujo padroeiro é o apóstolo Santiago Maior. O autor do retábulo estabeleceu um nexo entre Santiago e o combate aos mouros, compondo uma cena de grande complexidade figurativa e alto valor simbólico. A segunda, uma peça para mim desconhecida de Rafael Bordalo Pinheiro, a que me refiro aqui ao lado, na secção Cerâmica. A terceira, um "Matador" de Joana Vasconcelos, uma divertida peça formada por um Santiago de madeira "vestido" de rendas. Joana respondeu assim, com a ironia trangressora a que nos habituou, a um convite corajoso da diocese de Beja.

 
Eduardo Prado Coelho 26 de Agosto

Para a minha geração, ele foi uma referência essencial. Em primeiro lugar, provando que se podia começar mais cedo. Quando cheguei à Faculdade, o Eduardo, cinco anos mais velho, estava a terminar o curso, mas já tinha feito um percurso intelectual que nas gerações anteriores sem dúvida demorara mais tempo. Em 67, quando ousavamos todas as rupturas, o Eduardo divulgava em Portugal o estruturalismo, numa antologia que a Portugália editou, e escrevia sobre Foucault, Levi-Strauss, Lacan, Barthes, Derrida, Saussure, nomes de que jamais ouviramos falar. Além da literatura, e da linguística, da antropologia, também nos seduzia com textos sobre filmes, introduzindo-nos nos Cahiers du Cinema, e na obra de Truffaut, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer. Habituámo-nos a tê-lo sempre à nossa frente, escrevendo sobre os livros que ainda não tínhamos lido, discutindo as ideias que importava perceber, e que às vezes já nos sentíamos capazes de discutir (lembro-me da emoção com que aí pelos finais dessa década de 60, no Centro Nacional de Cultura, me atrevi a entrar no debate que ele animava sobre o Estado e a Liberdade, travando conhecimento pessoal, num registo de simpatia que perpassou estas últimas 4 décadas das nossas vidas. Nos anos da revolução, o Eduardo surpreendeu-nos muitas vezes pelas posições políticas, que todavia nunca lhe tolheram inteligência e sentido crítico, gosto pela análise de situação e sentido do risco. Este homem extraordinário, que escrevia como quem vive, era um conversador disponível, fazendo-o com o mesmo àvontade e a mesma paixão no estudio da televisão ou na mesa do café. Gostava do mar. Foi frequentador de S. Martinho, donde fugiu quando o muro de betão emparedou a baía e tornou a povoação invivível no Verão. Mais recentemente "descobri-o" na Foz do Arelho e na Ericeira. Fizemos uma viagem a Paris e Lion, em 2004, espicaçando curiosidades comuns sobre temas intermináveis, da política à fotografia, das mulheres belas à história. Encontrei-o recentemente, já depois da provação que fora o transplante hepático, na campanha de António Costa: entusiasmo contido de sempre. Com Eduardo do Prado Coelho, o melhor da minha geração começa a partir.

 
O rapto da paisagem 18 de Agosto

Daniel Rio Caixigueiro é ceramista galego nascido em 1955. Com uma experiência fabril adquirida em Sargadelos, enveredou posteriormente pela escultura cerâmica. As suas obras combinam diversos materiais, como sucede na instalação que pode ser vista no Museu Barata Feyo, integrada na Exposição de Escultura Cerâmica Contemporânea. Este seu trabalho, intitulado "O rapto da paisagem" reflecte sobre o território capturado pela construção. Módulos de habitação - cinzentos, repetitivos - dispoem-se de forma desordenada num espaço vazio que ocupam em superfície e em altura, trepando por um andaime. Metáfora da febre construtiva que invadiu a Galiza, exportável para outras paragens.

 
Desenvolvimento falhado? 17 de Agosto

Maria José Nogueira Pinto num texto ácido, que interpela o modelo de desenvolvimento e modernização adoptado pelo governo das Caldas ( Diário de Notícias de ontem): "Infelizmente, Caldas manteve-se nesse aparente desenvolvimento, assente numa gestão urbana de obra pública duvidosa e empreendimentos imobiliários. As enormes potencialidades das Caldas e das suas gentes estão embotadas por uma condução sem estratégia nem rasgo da sua edilidade". A merecer discussão, certamente.

 
Festa da Cerâmica 16 de Agosto

Primeira edição da Festa da Cerâmica, uma tentativa de devolver à cerâmica um lugar central nas Caldas da Rainha. Aplauso para a iniciativa. Quanto ao conceito - enquadrar a cerâmica num festival de verão, ou seja, num cortejo de eventos (exposições, feiras, debates, apresentações, concertos) - só no final saberemos se funciona. Na altura do balanço também convirá analisar o modelo organizativo. Mas o momento agora é de celebração!

 
Paulo Henriques 8 de Agosto

A rapida politização da demissão da directora do Museu de Arte Antiga só surpreendeu quem não reparou no investimento mediático com que desde a primeira hora a Dr.ª Dalila Rodrigues marcou a sua acção. Num tempo em que alguns museus se tornam estrelas patrimoniais, há directores que buscam o vedetismo. A comunicação social deixou-se seduzir facilmente por alguns gestos incomuns da directora agora demitida, servida pelas cumplicidades das revistas mundanas.
No actual processo aparentemente ninguém - jornalistas, políticos apressados - curou de saber quem é o Dr. Paulo Henriques. Dir-me-ão que o problema não é esse, mas o dos motivos da não recondução da Dr.ª Dalila. Mas como esta aceitou ser comentadora do seu próprio caso, a decisão do Presidente do Instituto da Conservação e Museus mostrou-se natural e lógica. E a escolha do Dr. Paulo Henriques é certeira, sem deixar de ser igualmente inovadora.
O Dr. Paulo Henriques não precisa de nenhum carta de recomendação, porque o seu curriculum fala por si. Tive o privilégio de ter acompanhado parte da sua carreira, tendo colaborado directamente com ele, nos planos científico e institucional, em diversas c circunstâncias, e por isso gostaria de aqui vincar o alto apreço pelo seu saber e pela sua capacidade de liderança de projectos museológicos. Como os caldenses bem recordarão, o Dr. Paulo Henriques dirigiu o Museu de José Malhoa na primeira metade da década de 90 e coordenou a equipa que concebeu e montou o Museu do Hospital e das Caldas. Veio a seguir a direcção do Museu do Azulejo, que consolidou como um dos principais museus nacionais e a mais importante referência museológica da cerâmica portuguesa. Foi também sob a sua responsabilidade que arrancou a formação do Museu da Presidência da Republica, em 1996. O reconhecimento das capacidades do Dr. Paulo Henriques explicam que, nos ultimos 10 anos, a mais destacada representação cultural externa, promovida, quer pelo Presidente da República quer pelo Governo, tenha contado com exposições de azulejaria portuguesa organizadas pelo Dr. Paulo Henriques.
Ao novo director do Museu de Arte Antiga, perante este desafio exigente, um voto de bom trabalho.

 
Não vá o sapateiro além da chinela 7 de Agosto

A propósito daqueles editores que se acham no direito de alterar os textos dos autores, esta saborosa carta de Eça de Queirós a Ramalho Ortigão:
"Meu querido amigo,
V. Ramalho vai ficar sem dúvida com os olhos…boquiabertos. Senão oiça. Ainda hontem… braço ao ar… berro…ao editor…Aqui d'El -Rey que estilisam a prosa, e lhe introduzem subrepticiamente mas sem cerimónia impertigados adjectivos, e me pintam e retocam a pobre prosa, e ainda com a cumplicidade da distancia!...Não posso, por exemplo mencionar rebanhos, que o revisor, cruel estilista, não aperfeiçoe logo numerosos . É de arromba! Onde honrado homem de letras porá olho rasgado e profundo a revisão, para lhe dar mais cor e emoção, aperfeiçoará com generosa solicitude, dest'arte: Olho muito rasgado e numerosamente profundo …Assim nosso Lorde Revisor mesmo ahi nas barbas da Ramalhal Figura, com magnanimidade de Pai Celeste, onde vir um cavalo porá numerosos cavalos, todos a quatro patas relinchando! E dando coices…É horrível…

José Maria

 
 
O blog dos vereadores 3 de Agosto

Os vereadores do PS na Càmara caldense criaram um blog através do qual difundem as suas posições políticas. A blogosfera é uma plataforma mediática em expansão, cada vez mais em concorrencia com os meios de comunicação tradicionais. Os blogs impuseram características próprias: cadência viva e crítica, posições desassombradas, subjectivismo, em suma vivacidade e sobreposição do ponto de vista pessoal à informação institucional. Políticos de diversos quadrantes mantêm blogs bem sucedidos (Pacheco Pereira, Vital Moreira, Medeiros Ferreira, por exemplo). Mas todos eles fazem dos blogs espaços de intervenção pessoal. O risco do blog dos vereadores do PS é tornar-se um órgão noticioso em vez de um blog. Ou seja, em vez de revelar as pessoas e os seus humores, a sua inteligência e cultura, em vez de ser um repositório de posts, ser um cemitério de comunicados e de press releases.

AguaMorna
 
Hansi Stael 1 de Agosto

Um pequeno texto sobre esta artista que revolucionou a cerâmica das Caldas, acompanhado de imagens de alguns dos seus trabalhos, aqui ao lado, na pasta Cerâmica

Stael desenhada por Alberto Pinto Ribeiro

 
Alice 31 de Julho
Em meados da década de sessenta, quando a conheci, ela estava na força da vida e tratava o mundo com uma mistura de confiança maternal e crueza ingénua. Acho que ela percebeu de imediato a circunstância marginal e desajeitada da adolescencia que eu estava a concluir e propôs-se dar um jeito a isso. Falava alto, fumava bastante, exprimia-se sem subterfúgios, por vezes com uma rudeza desconcertante. Havia nela um entusiasmo, próxima da alegria, e certamente animado pelo bom-humor, com que parecia enfrentar os problemas mais complexos e sobretudo as situações inesperadas. Perguntei-me muitas vezes como é que esta mulher lidava com a turbulencia de uma familia de antíteses, de que ela era provavelmente o único cimento e motivo comum de dinamismo. Tomou-me a seu cargo, quando vim para Lisboa, sem que isso significasse dirigir, submeter ou controlar. Alice não só me franqueou a sua casa, a sua mesa e me financiou estudos (contratando os meus "serviços" de explicador de história, latim e opan), como me mostrou formas simples, directas e até divertidas de lidar como o lado da vida surpreendente, intrigante e potencialmente incompreensível (para esse lado, o contributo da sua filha Ana era quase permanente). Alice incluiu-me. Devo-lhe muito mais do que ela poderia imaginar.  
Novos olhares 25 de Julho

O Museu Thyssen-Bornemisza, em Madrid, propõe exposições designadas Studiolo : o comissário é um autor que faz livremente a sua escolha entre as colecções do Museu, num máximo de 18 peças, apresenta e explica as suas preferências. Anteriormente, a direcção do Museu tinha lançado o que designou de "contextos da coleccção permanente", centrando a atenção sobre uma obra prima, acompanhada por outras que ajudavam a compreender a sua génese e reflexos. Excelentes sugestões.

 
Conhecer para prevenir 23 de Julho

O escorpião é um aracnídeo perigoso tanto para os humanos como para a sua própria espécie. Nalguns casos, o veneno da sua picada pode causar a morte, embora normalmente apenas provoque dor intensa.
Os escorpiões vivem em ambientes onde abunda matéria orgânica morta, preferindo locais onde se acumula lixo e detritos animais. É normal esconderem-se sob as lajes de túmulos. Há famílias de escorpiões que vivem sob as areias dos desertos. Em Portugal são conhecidos pela designação de lacraus.
São animais carnívoros e de hábitos nocturnos, alimentando-se principalmente de insectos e de aranhas, podendo também ocorrer o canibalismo, principalmente em cativeiro. Podem jejuar por tempo prolongado, armazenando alimento nos divertículos do hepatopâncreas. Observações em cativeiro registam um jejum máximo de 23 meses. Localizam a sua presa com o auxílio de pêlos sensoriais, as tricobotrias, que estão situadas principalmente nos palpos e que são sensíveis ao menor movimento do ar. A visão, em contrapatida, é pouco desenvolvida.
A melhor maneira de lidar com o escorpião é evitá-lo, prevenindo a sua presença. Não sendo possível, há que pedir ajuda ao Centro de Saúde ou Hospital mais próximo. Para saber mais, consultem-se os sites sugeridos aqui ao lado.

Trata-se de um animal sobre o qual se contam as mais diversas fábulas. A que prefiro é a de "O Monge e o Escorpião".
Um monge atravessava com os seus companheiros uma ponte, quando viu um escorpião em dificuldades na corrente do rio. Não hesitou: entrou nas águas, pegou no animal, procurando trazê-lo para a margem. Porém o escorpião, ao entrar em contacto com a mão salvadora, enterrou nela o ferrão e lançou o seu veneno. O monge fez um gesto brusco e o escorpião caíu de novo ao rio. Então o monge foi buscar uma tábua, recolheu nela o escorpião e depositou-o em terra. Observando a cena, os companheiros estavam indignados: - salvar um animal venenoso, ainda por cima ingrato? O monge ouviu com atenção estas críticas e por fim respondeu: "que se há-de fazer? - cada um agiu segundo a sua natureza ! O escorpião lança o seu veneno, eu ajudo quem precisa de fazer o seu caminho."

 
 
 
Outra sondagem de Verão 17 de Julho

1484 leitores do El País responderam (até este momento, 12 h) à pergunta: Que pensa de uma união entre Portugal e Espanha, como propôs Saramago?
Três possibilidades de resposta:
1 - Óptimo, ganharíamos 10 milhões de habitantes e passaríamos a ter algumas possibilidades no Mundial de futebol (a azul no gráfico);
2 - Péssimo, deu muito trabalho aos portugueses a independência, e estão bem como estão (branco);
3- É indiferente, mas passar a chamarmo-nos "iberos" é desgostante (rosa).

 
Eleições 15 de Julho
Os eleitores encararam esta eleição como uma espécie de escolha para a "pool position". A corrida segue dentro de momentos. Quem e como chegará ao fim, daqui a dois anos, é que verdadeiramente conta.  
Património mediático 8 de Julho

Seis das sete "maravilhas" patrimoniais escolhidas pelos "portugueses" situam-se na ala norte da grande Área Metropolitana de Lisboa (que, como é sabido, vai de Setúbal a Leiria). O Oeste fica com duas, tantas quanto a capital. De fora fica apenas o castelo de Guimarães. É a desforra de Ota sobre o resto do País.

 
Memórias 7 de Julho

Publicação no Sol do 4º volume do Album das Memórias de José Hermano Saraiva, último Ministro da Educação de Salazar e primeiro de Marcello Caetano, dedicado à sua passagem pelo Governo em 1968 e 1969. No que eu posso controlar através da experiência pessoal, o texto de H. Saraiva contém um excesso de erros, omissões e incorrecções que não pode ser desculpado com falhas de memória. Voltarei ao assunto.

 
Bienal 3 de Julho

Debate no Teatro Aberto sobre uma política cultural para Lisboa. Helena de Freitas coloca a hipótese de uma Bienal, Delfim Sardo apoia, Leonel Moura lembra que há bienais fora de Lisboa. Ingloriamente, Caldas da Rainha deixou morrer a sua, perdendo o que poderia ser um instrumento decisivo, um "hub" de "cidade criativa".

 
Berardo 3 de Julho

3 de Julho: no Centro Cultural de Belém, com a colecção Berardo, por entre a surpresa da inesperada afluencia e o desconforto de uma polémica tão previsível como inútil. Notei no Domingo os efeitos do abandono na conservação do edifício do Pavilhão de Portugal ocupado pela Trienal, e pergunto-me se não teria sido mais avisado, em 1999, proporcioná-lo ao comendador em vez de o reservar para uma improvável Presidência do Conselho de Ministros.

Museu Berardo
 
5 anos depois 2 de Julho

Reencontro longa entrevista que há 5 anos me fez Carlos Cipriano para a Gazeta das Caldas. Passamos em revista política e urbanismo locais, o debate regional em curso, o futuro da ESAD (na altura ainda se não consumara a integração da ESARTE e a Assembleia Municipal continuava a clamar por uma Escola de Educação), a minha actividade na Presidência, recordámos a questão das portagens do Oeste, e dei a minha opinião sobre alguns temas de política geral e local. O Dr. Fernando Costa rebateu algumas das minhas posições, mas a polémica foi simpática e breve.
Como os arquivos digitais da Gazeta estão online desde Março de 2007, pude recuperar o texto. A esta distância, há lá temas que mereciam novo debate. Publico-o aqui, com as fotografias "históricas" que então disponibilizei à Gazeta para "animar" uma peça tão extensa.

Entrevista Agosto 2002
 
Trienal de Arquitectura 1 de Julho

Visita à Trienal de Arquitectura de Lisboa (vide, neste site, "Estudos Urbanos"). Começo pelo Museu da Electricidade: exposição monográfica de Siza Veira. Há um painel com a cronologia geral da sua obra. As peças expostas, das últimas décadas, são apresentadas, modelarmente, em maquetas, fotos, esquissos, desenhos, acompanhadas de uma ficha de identificação. É permitido fotografar.

Uma surpresa, por entre os grandes geradores da antiga central eléctrica: uma exposição de ceramista norte-americano Arnie Zimmerman montada pelo arquitecto Tiago Montepegado. Arnie compôs com blocos e figuras de grés vidrado uma cidade moderna povoada de operários da construção, trabalhadores manuais, presidiários e outros desamparados, marginais, sem abrigo. Tiago concebeu um alto muro de tijolos cinzentos rasgado por frestas através das quais o visitante se pode aperceber do movimento da "Inner City".

Rumo em seguida ao Pavilhão de Portugal onde estão as exposições Portugal, Países, Paisagens, Universidades, Arquitectos Convidados e Intervenções na Cidade. Invoca-se uma reflexão sobre o papel dos vazios urbanos, esses espaços que resultam da degradação da cidade histórica ou da fragmentação e dispersão das áreas metropolitanas. Particularmente sugestivas são as ideias do núcleo Paisagem e Intervenções na Cidade.
Na cidade, como escreveu Bernardo Secchi, o vazio pode ser o silêncio sem o qual verdadeiramente não haveria som.

 
Siza Vieira, Pavilhão Multiusos de Gondomar, 2007  
A. Ziemmerman
Arnie Zimmerman, Inner City, 2007 (pormenor)  
Revisão 1 de Julho

Câmara Municipal das Caldas da Rainha vai dar início à revisão do seu primeiro Plano Director Municipal, decorridos mais de três anos sobre a respectiva aprovação. Entre os motivos invocados para precipitar o processo estão os novos instrumentos regionais e nacionais de planeamento, entretanto aprovados. Não encontrei, porém, uma referência ao Plano Estratégico encomendado e aprovado pela Câmara e pela Assembleia Municipal no mandato anterior. Percorro demoradamente o site da Câmara e também aí do Plano Estratégico nem vestígios. Não quero crer que a Câmara se tenha esquecido deste seu Plano e se prepare para o sepultar na gaveta das inutilidades (ou das incomodidades).

 
Recordar a Ogiva 30 de Junho

Reunião de Conselheiros da Fundação Armazém das Artes, em Alcobaça. A Professora Lúcia de Matos e o escultor José Aurélio viajam pela magnífica exposição "Escultura com Afectos" (não se pode perder, estão lá autores fundamentais dos últimos 40 anos e peças excepcionais). É impressiva a imagem da inauguração da Ogiva em 1970, em Óbidos: espaço, obras e ambientes que transitam quase quatro décadas numa continuidade singular.

Ogiva
 
Aeroporto/Augusto Mateus 28 de Junho

Se interpreto bem o sentido da suspensão da decisão sobre o novo aeroporto, a tese vitoriosa foi a de Augusto Mateus, e não dos partidários da localização na margem direita ou na margem esquerda do Tejo. No Congresso do Oeste, em Alcobaça, o que Augusto Mateus frizou, com aquela clareza que lhe conheço há tantos anos (produto da grande escola de Francisco Pereira de Moura), é que mais importante que o local é o conceito de areoporto: quais as suas funções no quadro da evolução previsível de Portugal, da Peninsula, da Europa, do Mundo global. Em Alcobaça percebeu-se perfeitamente - ou percebeu quem estava lá para discutir e não para preencher espaço mediático - que Mateus precisava de mais tempo para definir o modelo e que a decisão do local estava a condicionar a questão estratégica. Para já a vitória é dele. E quem não perceber que o facto de Augusto Mateus ter neste momento a seu cargo a elaboração do Plano de Acção para o Oeste é uma vantagem e não um risco ou uma ameaça, está a ver curto.

 
O nosso passado industrial 21 de Junho
Um seminário sobre arqueologia e museologia industrial que Carlos Coutinho proporcionou à cidade, no âmbito do mestrado que frequenta na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Na Biblioteca, onde, com identico enquadramento, intermediou uma exposição sobre o lápis. Com a participação de uma pequena plateia interessada que resistiu até quase à 1 hora da manhã, apresentações sobre a indústria do lápis, sobre o projecto museológico da Fábrica de Fiação e Tecidos de Tomar; reflexões e observações sobre património, gestão cultural, reabilitação e conservação, urbanismo, etc. Intervenções de Deolinda Folgado, do ISPAR, e de Jorge Custódio, um dos pioneiros da arqueologia industrial no nosso país. Também lá fui apresentar agumas fichas do património empresarial caldense do século XX (podem ser lidas, aqui ao lado, no Inventário).  
"Sou de Peniche" 8 de Junho

António José Correia, Presidente da Câmara de Peniche, na abertura da Convenção "Sou de Peniche":
"Muitas vezes, nas minhas andanças pelo concelho, aos fins de semana, encontro pessoas que aqui não vivem permanentemente, mas aqui nasceram ou aqui residiram numa altura da sua vida, e que me interpelam: "Se eu fosse Presidente, uma coisa que faria era...". Pois bem, a ideia da Convenção teve aí a sua origem. Todos vocês são convidados a tomar a palavra e a dizer: "Se eu fosse Presidente da Câmara daria toda a atenção a este tema, lançaria este projecto, mandaria estudar este problema, concentrava-me neste desafio, derrubaria aquele obstáculo, concentraria os meus esforços em apoiar esta ideia".
Daqui sairão pois recomendações. Todas serão publicadas e todas merecerão a consideração dos órgãos autárquicos, a começar pelo Presidente."
Quase duas centenas de cidadãos responderam ao convite do Presidente e, entre as 10,30 e as 19 horas questionaram , interpelaram, propuseram, discutiram. Uma lição de cidadania. Uma prova da democracia participativa.

Documentação
 
Proposta de corredor criativo 5 de Junho

Ao longo deste ano lectivo tenho assistido à concretização de uma operação urbanística que está afastar a ESAD da cidade, criando barreiras visuais e dificuldades de integração física do seu campus no conjunto urbano. Estimulado por uma intervenção recente do Presidente da Assembleia Municipal, inscrevi-me para usar do tempo do público na reunião da Assembleia Municipal de 5 de Junho. De facto, a 15 de Maio, o Dr. Luis Ribeiro anunciou que o próximo Congresso das Caldas seria dedicado ao tema do ensino, lançando desde logo o repto à ESAD para participar nesse debate.
Procurei equacionar os problemas de forma a apresentar uma proposta que permitisse superá-los de forma positiva, isto é inventando dispositivos que tornem a cidade mais atractiva e mais amigável para os criativos que a procurem para viver e trabalhar.
Relato da minha intervenção e da reacção dos representantes partidários na Gazeta de 15 de Junho.

Notícia G.C.
 
Leonor 31 de Maio
Com a ajuda da Tânia Jorge e da Dora Mendes (Museu do Hospital e das Caldas, Associação Património Histórico) apresentei no Café Central uma breve viagem pelas marcas caldenses da Rainha fundadora. Iniciativa simpática e muito participada da Associação Forense do Oeste, dinamizada por Isabel Batista, juiza no Tribunal das Caldas. Debate vivo e interessante sobre temas de história e património. As imagens, algumas inéditas e talvez surpreendentes, podem ser vistas aqui ao lado, no Inventário.  
Relatório 25 de Maio
Nos termos do Estatuto da Carreira Docente ainda em vigor, fiz hoje entrega ao Conselho Científico de um relatório de actividades pedagógicas, científicas e de investigação. Nele inclui a criação e manutenção deste site.  
Um ano depois 24 de Maio

Eurico Bonifácio da Silva e Serra morreu na passada Quarta-Feira, dia 24 de Maio de 2006. Tinha completado 90 anos uma semana antes. Era casado com Joaquina de Sousa Bonifácio da Silva e pai de Maria Clara e João Bonifácio Serra.
Nasceu no Carvalhal Benfeito, numa família de proprietários rurais. Frequentou os seminários de Santarém e dos Olivais. Mas, diferentemente de seu irmão mais velho, José, não enveredou pelo sacerdócio. Regressou ao Carvalhal, dedicando-se à actividade agrícola. Na década de 60 realizou a conversão da exploração agrícola para a área da fruticultura, criando com os irmãos uma pequena Sociedade Agrícola que administrou. Paralelamente, integrou, desde a década de 50, o corpo de louvados da Administração Financeira concelhia, tanto no sector da propriedade rural como no sector da propriedade urbana. Exerceu estas funções até aos 80 anos, secretariando uma equipa de que faziam parte os Srs. António Norte e Henrique Salles.
Sentiu-se atraído pela actividade política local, na linha de seu pai e sobretudo de seu avô (que foi vereador da Câmara Municipal antes da República). Integrou o executivo municipal por três ocasiões (num total de 5 mandatos): nos anos 40, a convite do Dr. Julio Lopes (2 mandatos), nos anos 60, a convite do Dr. Botelho Moniz (2 mandatos) e no final desta década, a convite do Eng.º Paiva e Sousa (cujo espírito empreendedor muito admirava).
Por esta razão, determinou o actual Presidente da Câmara que a bandeira do município fosse colocada a meia haste no dia do funeral do antigo vereador.
Tinha uma "paixão" pela escrita jornalística, que exerceu durante décadas com grande dedicação. Foi correspondente de O Século, jornal nacional, para o qual, dos anos 50 a 70, enviava pequenas notícias sobre a vida local, os acontecimentos pessoais mais relevantes, e as preocupações dos que viviam da agricultura.
Em 1958 integrou o grupo que fundou o jornal O Caldense , com dois médicos seus amigos, João Vieira Pereira e Bertolino Ribeiro Coelho. O Caldense teria uma vida curta, abrindo no entanto caminho ao ressurgir da Gazeta das Caldas , sob a direcção nominal de João Botelho Moniz e efectiva de Carlos Manuel Saudade e Silva. Eurico Bonifácio teve nesses anos 50 e 60, uma presença muito assídua na Gazeta , escrevendo artigos de opinião e notícias, e assinando até algumas reportagens. Nos anos 60, quando se deram os primeiros passos no sentido de dotar algumas freguesias rurais do concelho de luz eléctrica, edifício escolar e estradas em macadame, o repórter de serviço às respectivas inaugurações assinava muitas vezes Eurico Bonifácio.
Os seus artigos, assinados por vezes com o pseudónimo "João da Serra", seguem o roteiro dos temas da vida rural e agrícola, marcada pela incerteza do clima e dos mercados, pelas vicissitudes da política económica. Os movimentos imparáveis da emigração e da urbanização, despovoando as aldeias, a progressiva internacionalização da economia portuguesa, deslocando o motor da economia do scctor primário para a indústria e serviços - ficaram registados nos seus textos, muitas vezes nostálgicos, outras vezes criticos e reivindicativos.
O mundo no qual nasceu e cresceu acabou por se transformar radicalmente e, nos anos 90, Eurico Bonifácio deixou o Carvalhal Benfeito fixando residencia na cidade das Caldas da Rainha.

Gazeta das Caldas, 2 de Junho 2006

 
Breve romagem a Santarém, capital regional da minha infância. Seminário. Café Central. Banco do engraxador do Café Central
Mensagem para um finalista 19 de Maio

Pedro:
Como não tenho a experiência pessoal de ser finalista, não saberei talvez interpretar o teu sentimento nesta altura. Mas posso testemunhar o meu: estou feliz por ti e estou feliz porque a minha confiança em ti tinha plena justificação. E como eu acho que o trabalho, nomeadamente o trabalho com o conhecimento, é um processo que permanentemente exige mais trabalho e busca de conhecimento, no teu caso ser finalista de uma etapa é estar em transito para outra etapa.
Também quero testemunhar neste momento e agradecer-te por isso (os pais também têm que agradecer aos filhos) a forma como me ajudaste a enfrentar as responsabilidades daqueles 10 anos em que estive por vezes mais distante do que gostaria e do que tu merecias. Foi o saber que tu ias ultrapassando os teus obstáculos e vencendo as tuas barreiras que me permitiu também ultrapassar e vencer os meus.
Pai

 
Homenagens 15 de Maio

"Esta é uma das cerimónias mais expressivas do dia do município, na qual o poder autárquico mandatado pelo sufrágio manifesta reconhecimento a cidadãos e instituições que, nos mais diversos quadrantes, dignificaram com a sua acção a vida local. Poucos terão sido os dias 15 de Maio em que não compareci neste Salão Nobre para aplaudir as distinções concedidas e vibrar com aquele orgulho de quem se sente parte do destino duma comunidade".

 
À janela 17 de Maio

Carmen Martín Gaite ha visto muy bien cómo ese reino de privacidad y reclusión que es, y ha sido secularmente, el dominio espacial y vital de la mujer ha incubado, desde repliegues internos, un punto de vista sobre la existencia. La casa, sentida en un primer momento como cárcel, pasividad, rutina y parálisis, se asemeja también a su propio cuerpo tabuizado, sometido permanentemente a la ocultación por el recato. En un impresionante desdoblamiento, la vivienda se percibe como prolongación de la cárcel del cuerpo y de la mente, cuyas efusiones sentimentales e intelectivas amarraban, condenándolas, los tratados y sermonarios donde se tenía por nocivo cualquier tipo de instrucción que a las mujeres no les llegara mediante los libros de devoción y la enseñanzas de índole doméstica por vía materna. A este propósito, nuestra escritora saca a relucir en su ensayo un adjetivo en trance de extinción, extraído de sus rastreos bibliográficos por autores y autoras de los Siglos de Oro, empleado únicamente en femenino: “ventanera”, portador de una marcada carga de censura en boca de los moralistas de la época. Ellas, tachadas de “livianas” y “ventaneras”, no podían evitar levantar la vista, trascender lo que tenían más cerca; y lo hacían casi siempre con un aire retador y a hurtadillas. Los anhelos de libertad y de expansión nacieron arrastrando consigo una voluntad cada vez más feroz de vivirse en la autenticidad, sin tener que recurrir a disfraces ni máscaras: asomar el alma por las ventanas de los ojos, mirar con descaro o cautela, dejarse penetrar por las miradas ajenas sin temor a la reprobación o en procura de aquiescencia. No es de extrañar, entonces, que la vocación de la escritura naciese en muchas autoras como deseo de liberación y desahogo, y que ambos afanes tuviesen como marco una ventana, que es realmente el punto de enfoque y el punto de partida.

Iñaki Torre Fica, "La mujer ventanera" en la poesía de Carmen Martín Gaite.
Espéculo. Revista de estudios literarios. nº 19, 2001

 
Murillo
Rembrandt
Vasily Tropinin
Oeste 5 de Maio
Terceiro Congresso do Oeste, segundo em que participo, desta vez assistindo à totalidade das intervenções e debates. Os problemas com que nos debatemos são os do país, dos seus contrastes (velocidades, como ficou bem patente no painel de intervenções livres que antecedeu a sessão final), dos seus jogos de forças e fraquezas, oportunidades e ameaças. Duas notas curiosas. 1ª (terminológica): oeste, oestinos, afirmação recorrente e por vezes eufórica destes identificadores - há duas décadas ninguém se auto-intitularia "oestino" e há uma década o conceito só estava assumido em Torres Vedras e nos concelhos do norte do distrito de Lisboa. 2ª (política): o cortejo habitual de figuras políticas (deputados, ex-governantes) mal se mostrou, reduziu-se ao mínimo e não interveio no Congresso. Para este mundo os territórios resumem-se aos distritos. Congresso Oeste
"Long link" blogues: causas 2 de Maio

Blogues que fazem a diferença pelo desprendimento com que tornam mais acessível informação relevante e partilham (bons) gostos. Blogues para ler devagar, apreciar detidamente como um "long drink".

São diversas as frentes em que Ana da Palma pode ser encontrada. Todas sinceras, generosas, informadas. Controversas por vezes (inevitavelmente). Mas sempre animadas pela inteligência e pelo sentido de causas sem os quais a militância cultural se tornaria exercício árido ou arrogante. Como Ana espreita a cidade a partir do Imaginário, aqui lhe deixo uma chave de Nadir.

Arestas
 
 
 
 
 
Nadir Afonso, La Seine et le Grand Palais, 2001